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Por não amar, coisificamos também as coisas

“O mundo é cheio de coisas”. Quantos carros são produzidos a cada minuto em um linha de montagem? Pensar em números pode nos dar uma dimensão do tanto de coisas que existem. Já imaginou um carro ser produzido a cada um minuto, a cada 10 segundos? Eu já pensei nisso, e minha mente não conseguiu conceber tal cálculo. Na adolescente visitei com a turma da escola uma grande fábrica de automóveis e fiquei impressionada. Eu não podia acreditar que isso é realidade. Em 24 horas, quantos carros são produzidos? Imagina em um ano! São milhares! E esses milhares serão úteis a quem? E como serão usufruídos? E quantos serão elevados à categoria de “coisificados” por não terem valor, por não serem úteis beneficamente!
Com o tempo, depois de sair da cidade do interior, bem mais para roça do que para cidade, fui viver na grande metrópole, e passei a  observar o mundo das coisas. Quantas roupas existem nas lojas! Quantos sapatos nas vitrines! Preços diversificados, estranhos para entender o cálculo dos custos! 
Certa vez entrei em um shopping de moda feminina, eram tantas opções, tantos corredores, como um labirinto, e eu fiquei rodando, rodando e não conseguia comprar nada, e não conseguia sair dali, não conseguia nem mesmo escolher, fui ficando ansiosa, ao mesmo tempo que foi surgindo um desejo de obter todas aquelas coisas. Foi então que tentei focar minha atenção no que em princípio eu tinha ido buscar. E foi que consegui comprar os artigos que eu buscava, mas sai dali cansada por uma luta interna que se estabeleceu em mim entre o ver e desejar, ver e desejar, ver e desejar. Então eu passei a perceber com grande nitidez como o desejo é ativado em nós quando adentramos um mundo onde possuir e ter coisas é extremamente estimulado. Não que as coisas não sejam importantes, nunca disse isso, e esse é exatamente o ponto: saber  a importância e dar importância necessária às coisas. 
A roça onde eu morava ficava perto da metrópole e lá as coisas chegavam. Água, luz, hortaliças, roupas, internet, enlatados, refrigerantes, informações, livros. A questão é também saber escolher, igual à dona que vai à feira em busca dos selecionados. É preciso também saber usar, e é preciso também não se exceder. É preciso cuidar! 
Depois de dez experientes anos de incursão na metrópole, voltei a morar no campo, numa casa na área rural, bem daquelas rodeadas por árvores, numa estrada de terra, e eu percebia que ali eu não tinha muitos desejos de ter, eu tinha vontade de ser. Conectada à natureza, eu queria respirar, relaxar, escrever poesias, eu queria aprender, ouvir, pintar paisagens. À noite, olhando as estrelas eu pensava no mistério e na grandiosidade da vida. Isso é o que a natureza pode nos dar: conexão com o ser. E sempre que eu ia à metrópole, alguma vez na semana, e frequentava os centros comerciais das coisas, eu observava o desejo de possuir coisas irrompendo em mim. Logo, eu vejo o qual é perigoso passar pela vida sem cuidar de como nos expomos ao mundo. Bombardeados todos os dias para ter coisas, para possuir, para desejar.
 Não é um ter com consciência do que é necessário, é um ter onde as coisas perdem o seu valor. São tantas as coisas e objetos que nenhum deles tem valor. Perdemos o amor. O amor com o qual avaliamos a nossas necessidades. O amor com o qual vibramos para conquistar aquilo que nos é necessário. O amor para cuidar daquilo que nos é útil. Se me é útil um objeto ou coisa o razoável é que eu cuide para que a utilidade da coisa tenha longa vida. 
Costumamos dizer que nas relações atuais tudo é descartável, tudo é transformado em coisa, tratamos também as pessoas como objetos, no sentido de que tiramos delas a dignidade, o valor, a consideração e o respeito. Coisificar as relações humanos. Coisificamos as pessoas. Coisificamos a natureza. Coisificamos os animais. E tudo isso porque também coisificamos as coisas. Tiramos o valor e ficamos só com o lado mais material da coisa, talvez com a aparência da coisa, ficamos no vazio. Quem sabe dizer, ficamos com a massa vazia, a aparência e o pó. Talvez por isso temos tanta ânsia e tantos desejos por ter e ter e possuir mais e mais. Uma vida sem sentido, é uma vida vazia e cheia de coisas e relações vazias. Repito, tudo isso porque também coisificamos as coisas. E se um dia coisificamos por não amar, se amarmos também as coisas e cuidarmos delas com amor, também iremos resgatar o amor pelas pessoas. Resgataremos o valor da vida. 
Eu adoro saber a origem das coisas, porque tenho grande necessidade de valor, de sentido. Eu tenho certos prazeres em saber de onde as coisas vem, porque as origens contam histórias, os percursos contam histórias e as histórias nos trazem sentidos e compreensões. A consciência das origens nos faz escolher caminhos, caminhos que dão às coisas novas direções ou fortalecem seus sentidos de ser. É então buscar o ser na relação com coisas sem coisificar, buscar ser com as coisas, para que o ter não seja vazio, violento e contaminado.
Eu me lembro do meu primeiro pijama que minha mãe encomendou à vizinha costureira, era verde de florzinhas. E pasmem: ainda hoje dormi com ele depois de 25 anos. Ainda me lembro de um vestido que minha mãe encomendou à costureira para eu ir à praia, era todo de margaridas. Eu me lembro de muitas roupas que usei na infância e juventude, pois elas tinham muito valor, e memória, e história. Não que não possamos ter novas coisas, e coisas diferentes, nunca disse isso. Digo do amor. Digo do amor quando as coisas são amadas e cuidadas com amor e reconhecidas como úteis. Não que não possamos passar adiante o que não nos serve mais, nunca disse isso. Digo do desapego do amar, que é cheio de gratidão. Gratidão às coisas que nos foram úteis.
Talvez resgatar o valor das coisas nos ajude a ser mais humanos, a preservarmos o planeta, por amarmos cada pedaço de terra e oceano e coisa e criação que não são nossos, mas é responsabilidade de cada um cuidar com respeito. 
Por não amar, coisificamos também as coisas, e entendo assim:  por displicência no amar, não amamos. É chegada a hora de deixarmos de displicência, de negligência e estarmos mais atentos, atentos no amor, presentes para amar. Sem tanto coisificar e mais abençoar, dignificar, valorizar. 

Descontinuidades e continuidades -Crônicas da Terra

Sabe aquela sensação de começar e não chegar ao fim? Estamos sempre fazendo planos mentais, destes planos alguns iniciamos com ações concretas, e uma grande parcela de nossos sonhos se perdem no início do caminho. E muito poucos, mas muito poucos levamos adiante e obtemos resultados satisfatórios. São as descontinuidades e a falta de continuidade para as coisas que nos são importantes. Quase sempre existe uma sensação de frustração por nunca realizar aquilo que se busca realizar.

Incrível é que para muitas coisas maléficas temos grande facilidade de seguir o fluxo, somos até disciplinados. Digo dos caminhos equivocados que seguimos que nos trazem dor e confusão para nossas vidas, mas continuamos a fazer. E até parece que não temos controle e eles acontecem e acabamos repetindo contra a nossa vontade. Pois é, é que estamos acostumados, habituados, as vezes são modos de fazer que aprendemos sem perceber com nossos familiares e pessoas que convivemos, e são respostas que damos para a vida para nos defender. Digo que o mal se aprende!

Mas se o mal se aprende e sai do controle e ações equivocadas parecem ser tão comuns, o bem também se aprende, o bem pode ser vivido com autocontrole. O bem precisa ser treinado. Precisa ser exercitado com disciplina diariamente para que se torne também comum aos nossos dias.

Dos planos que fazemos é bem importante pensar de que natureza eles são. As vezes estão camuflados de “bem”, mas são como lobo em pele de cordeiro e nos iludidos. É bom avaliar a fundo nossas intenções. E criar as descontinuidades e as continuidades! Descontinuar caminhos viciados. E criar continuidades para caminhos saudáveis. E para os dois processos é preciso consciência, vontade, intenções corretas, coragem, ações concretas, disciplina, repetição, empenho, persistência. 
Fatalmente frustrações vão ocorrer. São partes dos aprendizados! Mas são frustrações vindas das tentativas, do movimento de buscar aprender e melhorar, bem diferentes daquelas frustrações que surgem de nunca tentar e continuar um plano. Contudo, no frigir dos ovos frustrações são frustrações e precisam ser transformadas, pois uma frustração atuante pode ser uma força destruidora como um furacão a frustrar os mais elevados planos.

Eu já vi muito por aí pessoas frustradas que, inconscientemente, como um carro desgovernado saem atropelando a tudo, a todos e em primeiro lugar a si mesmas com emoções tão negativas, gerando ações tão destrutivas, que quase se autodestroem. Muitos de nós em momentos chutamos essa bola fora!

As frustrações precisam de ser cuidadas com carinho, precisam de ser redirecionadas. Nada melhor do que uma raiva que aprendemos a descontinuar de nossos dias e não mais fica à espreita, magoada esperando para mostrar com violência sua dor. Nada melhor do que sentir a liberdade de respirar livre de emoções escravizantes. Não há nada melhor do que a liberdade de poder sorrir com a alma limpa! Não há nada melhor do que se libertar dos ensejos de luping de desejos atemorizantes. Não há nada melhor do que se libertar de ciclos indignos, repetições viciantes. Há algo melhor a ser feito com a nossa disciplina, usá-la como um força para caminhar na direção correta!

Há algo melhor do que passar a vida frustrado e frustrando os outros. O melhor é passar a vida realizado e realizando construções que ajudarão os outros a se reconstituírem no amor. E quando o amor bater à porta, continue… dará bons frutos!

Ana Terra Oliveira é psicóloga, escritora e contadora de histórias. 
Acesse seu trabalho: Blog pessoal http://www.flordaconsciencia.wordpress.com
Site http://www.psicologiasl.com

Maturidade é saber ser benção para o outro – Crônicas da Terra

Eu acredito que a vida é como montar um grande quebra-cabeça. Singular para cada um de nós e sempre tem aquela pecinha essencial que faz tudo casar, uma peça que faz sentido na nossa história, na nossa configuração de vida. As vezes é aquele ponto mais central onde tudo se resolve, onde tudo se encaixa e pode ser até o calcanhar de Aquiles, aquele lugarzinho onde temos que dar mais atenção e cuidar com afinco, pois pode ser o lugar de nossa redenção, mas também o lugar de nossa queda!

O que quero dizer com isso? Que buscar a maturidade é minha redenção, a nossa redenção, mas fragmentar-me é a minha queda. E estou sempre nesta linha tênue. Para mim desenvolver a maturidade é a peça fundamental. Obviamente que é um aspecto essencial a todo homem. Ocorre que chegou um momento da minha vida que eu me tornei consciente dessa peça fundamental. Eu descobri que era por isso que eu havia nascido: para me tornar uma pessoa inteira, atingir a maturidade na sua forma mais elevada, progredindo sempre. E é tudo o que eu faço hoje, é buscar ser uma pessoa inteira e ajudar pessoas neste caminho, a encontrar pontos de equilíbrio, pontos de inteireza. 
Certa vez eu estava na faculdade e eu tinha uma inquietação interna, e eu perguntava: “O que faz com que um homem tenha tamanha força de seguir, superar e atravessar caminhos apesar dos obstáculos, dificuldades, e entraves na caminhada?”

Mas eu não sabia traduzir em palavras exatamente a minha questão. Eu queria saber sobre esse “elã” de viver, esse entusiasmo, essa motivação para a vida, esse impulso vital. Eu conheci uma pessoa que foi benção na minha vida, ela me ajudou a entender onde estavam as peças que eu buscava com tanta inquietação. E para entender todo esse processo de atravessar obstáculos e ter força de seguir eu fui estudar ativamente sobre fragmentação e maturidade. E desde então muitas inquietações encontraram seu lugar, não todas claro, cada nova inquietação surge a cada nova compreensão, é a roda da vida.

Pois é, a maturidade anda junto com a integridade. Então, vale nos perguntar: “aquilo que fazemos, pensamos, sentimos, falamos nos fragmenta ou nos une interiormente?” Bem sabemos que cura é inteireza. Inteireza é peça fundamental para atingir a maturidade. E maturidade é fator de felicidade. É um estar de bem e lidar bem consigo mesmo, com a vida, com os outros.

Nisso três livros viraram meus fiéis amigos: ‘O Ser Fragmentado’, ‘O Ser Inteiro’, ‘Fontes da Força Interior’, de um de meus escritores favoritos, Anselm Grün. Minha boca saliva ao pegar seus livros, me traz muita alegria, ele traduz aquilo que estou ávida por ouvir unindo o conhecimento psicológico e espiritualidade.

E nestes dias eu me lembrei muito de suas palavras, ele diz: “maduro é o ser humano que se tornou coerente em si, não é mais dividido” e “maduro é o ser humano que desenvolveu sua essência e se tornou uma benção para os outros” e “ maturidade não é algo que se desenvolve apenas para si, é também algo que representa um gozo para os outros”.

E como isso tem me chamado a atenção! Eu tenho convivido com pessoas que são tão inteiras, coerentes, e se tornaram bênçãos para os outros! E é tão belo! Esta é a maior beleza que se pode desejar, que se traduz em todos os movimentos, no modo de falar, agir, se expressar. Como é bela a pessoa madura! Onde elas chegam levam harmonia, alegria, são prestativas, agradáveis e compassivas. Sabem respeitar, sabem a hora de falar, o que falar e quando calar. Todos querem ficar perto, todos querem ouvir o que tem a dizer, são pessoas queridas. Estão sempre ajudando os outros, não desdenham, não discriminam, sabem apreciar, admirar os outros e ver o bem.

Então, que tal sermos também bênçãos para o outro? Oferecer sorrisos, gentilezas, falar com mais jeito, mais educação, não ficar tão irritado com qualquer coisa, saber ser mais compreensivo, ser mais amigo, confiar mais, abrir mais o coração para amar e ajudar. Deixar essa fofocação de lado. Nossa, para quê ficar falando mal do outro? É tempo perdido.

Acho que cabe bem essa oração de São Francisco: “mais amar que ser amado, é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado”. Então vale a pena frequentar o salão de beleza da alma e unir tudo o que está fragmentado. Aprender a ser flor, para enfeitar e perfumar os caminhos. Mais que ser espinhos e fazer chorar, é ser benção, embelezar e florescer, frutificar e amadurecer! Maturidade é rendenção! 
Ana Terra Oliveira é psicóloga, escritora, contadora de histórias.

Santo é o pecador que nunca desistiu -Crônicas da Terra

O santo atingiu a maturidade, penso eu. E por falar em maturidade, como tenho dito nos últimos tempos, quão benéfica é esta conquista! A maior conquista que alguém pode fazer. É atingir um estado de integridade pessoal que traz felicidade para si e para a sociedade. Mas como tornar-se uma pessoa madura? Primeiro tentar, depois não desistir, e no caminho se conhecer e se aprimorar.

Sabemos que estamos sempre buscando por uma vida fácil, uma vida de mínimos esforços e pagamos um preço altíssimo quando decidimos viver de forma superficial, sem aprofundar questões humanas e temas fundamentais para trazer sabedoria para a vida. Pagamos com prejuízos à qualidade de vida.

Nós nos habituamos a viver para satisfazer as necessidades materiais e os gozos dos sentidos. Muito além de consumir, e consumir bens e sensações, o que mais vale a pena na vida é investir em aprimorar-se e crescer interiormente. Embora pareça não ser tão mensurável, a verdade é que a única realidade que existe é o mundo invisível que criamos para viver com a forma de conversar, interagir, agir, o que pensar, o que sentir – são aquilo que faz o nosso mundo ser como é para nós: de paz ou de turbulência!

As vezes é mais fácil investir no carro, na casa, na beleza física, nos dentes… Não que não seja importante, mas é preciso também viver de forma mais profunda, porque o problema do homem e da sociedade sempre foi de natureza ética… E ser ético depende também de criar relações maduras. Ser uma pessoa madura exige trabalho, um trabalho que é revestido de autoconhecimento e transformação sistemática.

Santo é o pecador que nunca desistiu. Essa é uma grande frase dita pelo papa João Paulo II, que contém a chave daquele que deseja se aprimorar. Sabendo que “santo”, penso eu aqui nestes escritos agora, é o lugar da bem-aventurança, da maturidade. O pecador é esse lugar de reincidência de erros e círculos viciosos.

A vida exige transcendência, crescimento, rompimentos, desapegos, fechamentos de ciclos, renascimentos. A vida é um movimento contínuo de um desabrochar infinito, como diz aquela música de Caetano, Canto de um povo de um lugar: “Todo dia o sol levanta, e a gente canta ao sol de todo dia. Fim da tarde a terra cora e a gente chora porque finda a tarde. Quando a noite a lua mansa e a gente dança venerando a noite. Madrugada céu de estrelas e a gente dorme sonhando com elas.” A vida não se esgota, a vida é a todo o segundo uma espera de cuidado. A vida se repete, as circunstâncias podem até se repetir, mas exigem de nós novos comportamentos, novas respostas.

A gente canta, a gente chora, a gente dança, a gente dorme e a gente sonha, enquanto o sol continua a nascer, continua a corar, a lua vem, as estrelas correm para tomarem seus lugares no céu. É esse pulsar da vida que te chama a responder de novo, com mais coerência, a cada passo, verdade? Não que não haverá erros, mas os erros não são motivos de parada e sim degraus da caminhada.

A gente muitas vezes repete aquilo que vai na direção contrária. Mas é um cuidado constante, um redirecionar da bússola, um reverenciar todos os dias, quando você levanta e o Sol nasce, e você pode agradecer pela oportunidade de continuar tentando!

“Uma pessoa madura não é uma pessoa que não erra, porque isso não existe. Uma pessoa madura é uma pessoa que sofre com a própria fragilidade, que sofre com o próprio mal e grita por uma possibilidade de solução disso.” Foi o que o disse sabiamente o professor Miguel Mahfoud.

Pois é, buscar soluções apesar dos pesares… Para a ética e para a maturidade nunca desistir, superar o pecador, e santificar. Santificafo seja e que venha a nós o reino de paz.

Ana Terra Oliveira é moradora de São Lourenço, psicóloga, escritora e contadora de histórias. Telefone: (35) 99761-5782

Pequenos e Silenciosos Abandonos -Crônicas da Terra

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Silencioso, inconsciente, imperceptível, sem nenhuma intenção, mais parece cobra sorrateira. Perigosamente invade as relações parentais. Muitos pais conscientemente nunca abandonariam os filhos e aparentemente não abandonam. É o tempo! Mas abram os olhos e o coração, o tempo pode exigir vigilância! A modernidade líquida, que o Bauman nomeou, nos permeia com seus modos e costumes e todos nós precisamos de consciência!

Os pais, se perguntados, desejam dar aos filhos uma ótima educação, valores humanos, afeto, carinho e um futuro brilhante. Os pais fazem de tudo para dar aos filhos o que acreditam ser importantes para seus desenvolvimentos pessoais. Mas é necessário se questionar, olhar para dentro de casa e observar com cuidado: será que o ideal que moveu a formar família, ou sonharem com o nascimento dos filhos na prática se aproxima de uma realização razoável e coerente com o ideal?

É sempre lindo ver sonhos sendo traçados e uma rica experiência de vivências com os filhos! Os pequenos dão milhares de motivos para os pais sorrirem e gargalharem de suas atitudes inusitadas e jeitos de ser irreverentes, a medida que vão crescendo. Mas também necessitam de ser educados, corrigidos, orientados. É preciso encontrar maneiras de lidar com as birras, os choros, as travessuras. São as oportunidades desafiadoras, nem sempre fáceis, mas nunca podem ser negligênciadas a terceiros, é função do pai e da mãe colocar limites e os ajudar a amadurecerem.

Aí está o ponto, amparar os filhos materialmente, cuidando da saúde do corpo; espiritualmente educando com valores e ensinando virtudes; psicologicamente oferecendo afeto, e recursos para desenvolvimento mental, emocional e cognitivo.

Fato é que nem sempre os pais aprenderam como fazer, é bem verdade, nem sempre estão preparados. E digo: nunca estarão! Pois, ter um filho é uma nova experiência nunca antes vivida e te coloca em uma posição totalmente desconhecida: a de pai e de mãe.

A questão é: por ser desconhecida, por ser uma nova experiência vai exigir esforços, empenho, dedicação, vontade de aprender, desejo de crescer com a experiência, de ser melhor, as vezes, buscar ajuda, buscar informação e também desfrutar deste privilégio. Como tudo na vida, não é mesmo? Mas não é justificável negligenciar a função por inúmeras outras justificativas!

Aí está o ponto! No mundo de hoje, as vezes, quer dizer, com bastante frequência, pais da nossa geração preocupam-se demais com os próprios desejos, com os próprios projetos, com os próprios sonhos, com os próprios trabalhos e colocam em um plano a parte, um segundo ou terceiro plano, a relação com os filhos. Não que não seja importante cuidar de si mesmo, pelo contrário, é muito importante cuidar de estar de bem com a vida, estar mais equilibrado, isso vai influenciar positivamente os filhos.

Digo do egocentrismo que existe entre as pessoas, os excessos, os maus costumes desta modernidade. E sem querer, o abandono vai acontecendo, silenciosamente. É um tal de atrasar para buscar na escola, até que vira um esquecer de buscar o filho; é falar tanto no celular até que se fala mais no celular do que se olha para o filho. É olhar tantas mensagens de zap e postar coisas no insta que conversar com o filho vira incômodo. É ficar até mais tarde no trabalho até ficar só no trabalho e virar visita esporádica na própria casa e não perceber que o dentinho caiu, que o filho está sempre triste e calado. É dar tantos brinquedos e ser impossível tirar um tempo para brincar e dar carinho. Brinquedos não promovem afeto por si próprios. É dar tantas roupas, viagens, e eletrônicos e não se preocupar em dar valores, corrigir, ensinar o certo. Você anda cansado demais e não tem disposição para dar limites. E não percebe que quem está dando os limites é o youtube, é de lá que vem as referências, os exemplos. Quem está educando essas crianças e adolescentes? O YouTube? Você sabe o que seu filho visualiza entre um videozinho e outro? É dar tantas opções às crianças que elas ficam ansiosas.

Sabe, isso tudo parece muito duro de ouvir! Mais duro ainda são os pequenos prejuízos, dos pequenos abandonos, silenciosos e imperceptíveis, que se tornam grandes problemas e transtornos. Não traçam o futuro digno e brilhante que foi sonhado por você, não traçam nem um futuro lá na frente, porque as consequências já são bem mais imediatas, as consequências não tardam muito em chegar, não são como eram antes, elas acontecem imediatamente. O que elas traçam é um presente de desajustes e dor. E eu vejo, eu vejo adolescentes querendo buscar saídas para as carências e as sensações nas drogas. Perdidos, sem nenhuma motivação, sem ânimo de viver e estudar. Incertos de propósitos, não sabem para onde ir. Eu vejo crianças e adolescentes falando que a vida não tem sentido, e que não sabem porque, mas pensam ou já pensaram que seria melhor não viver. Eu vejo o sofrimento de se sentir esquecido, abandonado. Mas não faltam comidas e eles vão ter que conviver com a diabetes, a hipertensão e as comorbidades!

E o que fazer agora? Olhar para dentro de casa, deixar-se tocar, reconhecer a seriedade, tomar nas mãos a responsabilidade, esforçar em fazer diferente, buscar auxílio quem sabe. A vida tem jeito e é isso o que eu faço: eu insisto que a vida tem jeito. Nós temos jeito e essa é a minha grande aposta, por isso eu continuo, por isso eu luto. Nisto eu acredito fortemente. O presente e o futuro brilhante não vem só do desejo, depende do empenho correto, de esperança constante, atitude coerentes, e quando não mais estiver ao alcance, entrega!

Se houver paradoxo, que haja boa poesia! – Crônicas da Terra

contosdaterra

“Tudo me é lícito, mas nem tudo me convêm.” Esse é um ditado bíblico que eu sempre ouvi dizer. Coríntios nunca se fez tão necessário, tão atual, pois as circunstâncias hoje exigem escolha correta. É preciso vigilância, é preciso buscar conhecimento, sair da ignorância, é preciso presença no agora, certa dose de questionamento sobre as coerências das coisas e muito entendimento prático e consistente sobre o bem para não cair nas seduções da moda.

A sociedade do paradoxo está no meio de nós. Estamos envolvidos hoje na névoa social que o filósofo Lipovetsky veio nos abrir os olhos. É a sociedade hipermoderna onde certos valores são equacionados exponencialmente: hiperconsumismo, Individualismo, hipernacisismo, Imediatismos. Cuidado! Chegamos aos extremos. Estejamos despertos, vigilantes!

São tantas tecnologias, tantas informações, tantas ofertas de produtos. Ansiedade para ter, ansiedade para aparecer. “Ser” nem sempre dá ibope, não dá muitas curtidas e visualizações, nem movem milhões de dólares em clipes do novo álbum. Muitas vezes tem sido assim! Mas eu sei que nem sempre é assim, eis o paradoxo.

Revestidos por este espírito da época, as coisas viram moda e caem no vazio, até mesmo na indignidade, na fragmentação. Tudo é rápido, há logo uma nova versão. A nova versão já existe antes mesmo da última versão ser lançada. Está tudo planejado para incitar o desejo.

Aquela história: você mal acaba de comprar o celular e sente que ele já está ultrapassado. Uma insatisfação constante, que até mulheres e homens querem trocar de cabelo como se trocam de roupa.

E no mundo das reflexões, importantes para mudar o modo de fazer e viver, grandes lições passam pelos dedos despercebidas na rolagem dos feeds das redes sociais… ninguém se demora em refletir apreciando um único pensamento. A mente se agita e logo milhares de pensamentos surgem simultâneos.

Nem sempre é assim, eis o paradoxo.
Mas deste lado da coisa as postagens de ontem são tão velhas e antigas quanto os casacos do avô. E os textos? Se lidos são engolidos num buraco negro, perdidos, que ninguém é capaz de retornar a meditar sobre… Nem sempre é assim, eis o paradoxo.

Mas aos 30 anos tem gente que já se sente velha, se preocupando em demasia com as rugas, as aparências… É a sensação de velharia que nos acomete. E há jovens tão cansados que fogem de qualquer pesado. Nascidos de pais que muito trabalharam para garantir-lhes os bens e os consumos e as oportunidades deste tempo. Tempo onde é normal não ter tempo para nada, nem para cultivar amizades, olhar nos olhos, completar frases com gentileza, sabe aquele diálogo gentil? Mas a coisa é tudo na base do “Ok!” e às vezes de forma bem autoritária e agressiva.

Poesia então, nem se fala, coisa rara de se ler! Porque exige entrega, exige presença, exige sentir, respirar, pensar, contemplar, exige estar presente no agora! Muitos reclamam da poesia, dizem que é um emaranhado de palavras sem nexo, sem sentido. Eu que sou poeta digo: sem nexo é a indisposição para estar diante da poesia, para viver o agora! Ler poesia pode ajudar a serenar, curar ansiedade, pois não é possível ler poesia com leitura dinâmica. A poesia exige vivência! Exige respiração, entonação, respeito aos ritmos, à pontuação. Quem se arrisca, se transforma!

É preciso mudar de paradigma diante dos paradoxos. Se de um lado existe um espírito permeado pelo vazio de sentido, do outro lado, nunca se viu tantos movimentos em busca pelo saudável, tantas receitas para inovar na alimentação consciente, tanta busca por uma vida mais orgânica, mais simples, próximo à natureza, com proteção aos animais e ao meio ambiente, e a preocupação na garantia dos direitos humanos. E isso é muito bom! É conseguir trazer a luz em tempos que o espírito da época anda tão acinzentado.

Mas é questão de escolha!
Eu quando ia à praça me deparava com este paradoxo e me intrigava. Eu queria ir a um lugar agradável, com árvores, para respirar e via pessoas alegres brincando com os cachorros na grama verde de um fim de tarde. Pessoas animadas andando de bicicleta, outras fazendo caminhada, yoga, outras fazendo meditação, outras conversando sobre palestras e filmes que traziam boas ideias para o bom vivem. Mas ao mesmo tempo via casais se agredindo, animais abandonados, grupos sentados usando drogas, pessoas estressadas com buzinaços no trânsito…

Este é o paradoxo: a existência dos dois lados da moeda neste mesmo tempo, as vezes em espaços tão próximos. Mas viver e experimentar estes lados é uma escolha. Esta é a grande esperança e liberdade para tempos hipermodernos: é escolha de cada um decidir o que vai viver! Com que parte do paradoxo você ancora a sua vida? É uma questão de escolha! Escolher um implica em abandonar o outro. A escolha é concretizar, solidificar, tornar consistente, para que a vivência real aconteça. Se houver paradoxo, que saibamos escolher pela luz e não pelas cores cinzas. Havendo paradoxo, eu prefiro ficar com o que é bom, eu escolho poesia!

Ana Terra Oliveira é moradora de São Lourenço, Psicóloga, Escritora e Contadora de Histórias.

Simples Verdades – Crônicas da Terra

Já estamos em abril. Isso para nos situarmos que o primeiro trimestre está no fim. As três super luas já brilharam no céu com todo o esplendor. E nós? O que já fizemos de surpreendente na balança da vida? Os bons propósitos estão em curso ou tudo ficou como meias verdades como proposta em página fechada na agenda? A vida é muito preciosa para ser negligenciada. Pois tudo aquilo que foi planejado para uma vida boa precisa ser cumprido. Essa é uma verdade. Uma simples verdade, capaz de mudar tudo por inteiro se simplesmente fosse realizada. O tempo não pára para esperar quem estaciona. O tempo é movimento. A vida é curso, é desenrolar de uma história. E qual história estamos a contar ao final de cada dia? Qual o saldo de nossas ações quando fechamos as contas ao anoitecer? Qual ensinamento colhido agradecemos ao encostar a cabeça no travesseiro?

Por ventura há consciência? Por ventura há luz? Os olhos se fecham em paz? Na paz da consciência de ter vivido uma vida boa, cumprido a missão, a função, o dever, a responsabilidade?Estamos muito acostumados a viver “despercebidamente”, sem estar realmente presentes nos acontecimentos, nos momentos, nas intenções. Acordamos no susto com o celular, logo tomamos um café sem apreciar os aromas, pois são tantos pensamentos a desviar a atenção, mil planos delirantes e desejos. Vamos ao trabalho a mercê do humor, que fica a mercê das contingências, como se o humor tivesse vida própria, e fosse assim tão incontrolável pela vontade superior da mente humana. Deixamos que o humor fique sem disciplina. Esta é uma verdade, nossos humores precisam de disciplina, de direção, senão ficam como crianças mimadas ditando tudo de forma egóica.

E no trabalho perdemos a dimensão dos objetivos, do foco, nem temos motivações corretas. A vida passa a ser um acordar, comer, trabalhar, acordar de novo e comer de novo e correr atrás do dinheiro e contas para pagar e coisas para comprar, bagunça a desfazer, e onde fica o amigo nesta história, onde fica o marido, onde fica o filho, onde fica a própria consciência?!… Anbandonada em um automatismo sem sentido. Esses são sintomas adoecedores, a vida está sendo vivida na superfície. Ignoramos as questões mais fundamentais, os valores, os porquês, o porquê fazemos, o porquê vivemos, o que realmente precisamos, o que é curador, integrador e saudável, o que é realmente importante, o que é prioridade. Perdemos a noção!

Quanto abandono! Eu considero, observando as histórias de vida que acompanho, que o abandono seja o grande sintoma da doença perniciosa dos tempos atuais, sorrateira a seifar o que é mais precioso: a vida. O abandono de si mesmo e do outro. O abandono é uma ferida aberta que precisa ser tratada.

Filhos abandonados pelos pais, não que não tenham comidas, boas roupas, lazeres, viagens, brinquedos, celulares e coisas, isso não, isso é de grande preocupação e quase sempre suprido eficazmente. O melhor a dizer seria de filhos que sofrem de abandono psicoespiritual, justamente por falta de valores, falta de oferecer formação humana, oferecer o tempo, o olhar, o afeto, a atenção. Filhos abandonados afetivamente. Filhos negligênciados que optam na adolescência por drogas, automutilação, supressão doentia de carências e comportamentos inconsequentes. Sem educação, sem limites e desesperados. Desesperados precisando de serem cuidados, amados, que olhem por eles, que lhes ensinem o valor da vida, os limites libertadores, os valores primordiais de uma existência verdadeiramente livre e feliz.

E é no cenário de abandono onde a indignidade e as perversões sociais acontecem hoje. Por negligência, por desatenção, por superficialismo, por falta de real motivação, por irresponsabilidade com a missão, por não olhar, não ver, não cuidar, e ignorar. Daí surgem também vidas sem engajamento, vidas cansadas, adultos que só reclamam e contemplam o passar das horas sem tomar atitudes, pessoas que só sobrevivem, engolidas pelo tempo, pelo espaço, pelas impressões, pelas escolhas incoerentes. Pessoas frustradas, desesperançadas.

Pessoas que abandonam a si mesmas, pois optam por viver ignorando os valores da consciência e ignoram formas mais saudáveis de vida. Desesperadas acreditam não encontrar saídas.

Calma! A vida tem jeito! Vamos rever as escolhas! Vamos optar por escolhas benéficas, vamos abrir a mente para mudar, para aprender novos jeitos de fazer as coisas, estudar quem sabe opções melhores que já estão à disposição, se inspirar em pessoas que construíram valores. Há pessoas sim construindo um novo mundo no mundo! Isso é uma grande verdade. Há grupos e pessoas engajadas e usufruindo de novos padrões psicoespirituais. Estou falando de valores, princípios, de novos padrões mentais e emocionais, de filosofias vividas na prática com verdade.

Se o desespero vier, calma! As vezes, três respirações conscientes e voluntárias pode ajudar consideravelmente. Essa é mais uma verdade. Respirar é vida! Respirar é desanuviar a mente, revitalizar o corpo, reordenar os sentimentos. Respirar é a receita dos sábios para uma vida plena. Essa é uma verdade, respirar não gasta dinheiro, não depende do outro, não gasta o tempo, é só inspirar e expirar com atenção, com presença.

A verdade é que a sociedade precisa renascer e cada pessoa precisa renascer junto. Cada pessoa precisa se curar, se amar. E eu também estou aprendendo a cuidar, não mais abandonar. Acredito que aí está o caminho, a cada pessoa que vem a mim, é mostrar que a vida tem jeito, amar e cuidar desta ferida do abandono. Esse deve ser o melhor luping de vida: eu cuido e sou cuidada, eu cuido, me cuido, se cuide. Amar para que a ferida se transforme e dela surja o perdão, como a flor de lótus que ressurge bela da lama. É verdade, a missão da flor de lótus é também a minha missão!

Certos usos irracionais – Crônicas da Terra

“Os animais são seres irracionais”. Essa foi uma máxima cultivada pelos seres humanos durante muito tempo como forma de diferenciá-los dos outros animais, afirmando que o homem é o único animal racional. Mas, depois dos estudos sobre inteligência e outras habilidades essa máxima não é uma verdade assim tão máxima. Muitos animais desenvolvem inteligência, capacidades cognitivas, e conceitos abstratos como demonstrar afetos, cuidado, proteção, carinho e sentimentos. Até mesmo podem ser muito mais sensíveis e perceptíveis aos ambientes e aos estados emocionais dos outros.

E vale pensar: o homem com toda a sua razão tem sido razoável? Tem utilizado suas capacidades para criar uma humanidade mais equilibrada, coerente, e consciente? Bem sabemos que razão não envolve só o racional. A lógica é apenas uma forma de razão. Mas se olharmos somente pela lógica racional, podemos questionar, temos sido lógicos? Até mesmo a lógica está sendo trocada por comportamentos e hábitos ilógicos.

Por aí é possível ver de tudo, ver pessoas agindo basicamente levadas pelos impulsos materiais em busca de prazer que pode gerar muito desprazer. Se formos avaliar melhor, se o homem estivesse conectado com o próprio instinto compreenderia a necessidade de se colocar limites em favor da preservação da vida. E se o homem estivesse conectado com a própria natureza compreenderia a necessidade de se colocar limites em favor da preservação do equilíbrio biopsicosocioespiritual. Ou seja, o papel do instinto funcionaria para preservar a vida, o papel da cultura funcionaria como forma de instruir, educar e formar pessoas conscientes. Instinto, natureza e cultura trabalhando pela integridade hunana.

Mas, para ter uma idéia, estudiosos dizem que o homem vive desconectado do próprio instinto e para ele não há limites, limites para os abusos que ele tem submetido ao corpo, abuso de sensações físicas e emocionais, uso de entorpecentes, tudo aquilo que vem causando malefícios à saúde integral. Por exemplo, um pássaro ao experimentar algum alimento em desacordo, tóxico, logo o abandona, pois o instinto mostra que poderá levá-lo à morte. Mas o homem, ao contrário, desconectado do instinto segue utilizando tóxicos, seja através de alimentos com agrotóxicos, seja através de cosméticos e uma série de produtos químicos não naturais e prejudiciais, seja explicitamente através de uso indiscriminado de remédios e pior ainda através de drogas. Isso existe, devido também a uma desconexão da cultura de valores humanitários, e valores da natureza consciente.

São os usos. A desconexão. A dissociação. Usos ilógicos. Usos irracionais. Usos nada razoáveis. E se um dia acreditou-se que os homens são animais racionais e os outros animais são seres irracionais este pensamento fez o homem achar que era uma raça privilegiada e superior.

Um certo egocentrismo humano de achar que é o centro do universo e que tudo o mais existe para satisfazê-lo.

Animais existem para servir ao homem? E tal lógica se perpetuou ao ponto da relação do homem com o animal ser pautada na exploração e na relação mercadológica. O homem produz animais, o homem cria animais para trabalhar para ele, o homem cuida da saúde do animal para vendê-lo ao consumo. O homem consome animais, usa animais. Para inúmeros fins. Desconhecemos muitos dos fins. Nem temos noção do quanto os animais são explorados. Nem proporção. As pessoas também tem animais de estimação como forma de satisfazer as carências emocionais, na maioria das vezes isso é bem inconsciente. É verdade que não é sempre assim e nem se pode generalizar, o movimento de uma lógica correta e amorosa para com os animais existe e é forte. Mas, é preciso ver que o velho ainda existe e que precisa ser potencialmente transformado.

Existe! O homem tem privilegiado ter animais de estimação em detrimento de relações humanas. Talvez porque em decorrência do uso, o animal no lugar de objeto, não fala, não expressa opiniões, não incomoda, pois se incomodar é mais fácil controlá-lo. Ou mesmo desfazer-se dele quando necessário. Isso é possível na relação com coisas. Coisas podem ser descartadas quando não servem mais. E mesmo assim o animal nunca substituirá a relação que se faz necessária ser estabelecida entre humanos. De outra forma, um animal quando tratado em sua dignidade pode ser um bom amigo, um bom parceiro, um companheiro, é o caso de animais que verdadeiramente são de estimação, não que são tratados como humanos, isso nunca, mas porque são estimados, são tratados como iguais em direito de dignidade.

Apesar de toda a quebra de paradigmas, a crença é arraigada e até as intenções elevadas podem estar contaminadas por esta visão de uso e posse, de mercado, de exploração. Esses dias eu estava lendo uma matéria sobre gatos onde se dizia que os gatos são seres especiais, capazes de purificar energeticamente o ambiente. Até aí tudo bem, porque os gatos são realmente incríveis, dóceis, amorosos, bons companheiros, ótimas companhias. Mas o que chamou a atenção foi a recomendação: se morar mais de uma pessoa na casa o ideal é possuir mais de um gato para que a carga energética negativa gerada seja distribuída. Então pensei: legal não sobrecarregar, mas não seria melhor buscar em primeiro lugar cultivar um ambiente saudável, com relações amorosas para uma atmosfera leve para que o próprio animal possa usufruir desta atmosfera sem precisar ter que servir de uso como purificador?

Se queremos trazer dignidade para a vida na Terra precisamos ultrapassar essa visão de uso como coisa, exploração e mercado. O animal não existe para ser usado. Ele existe e precisa ser respeitado, viver sua vida de bicho e até mesmo pode contribuir e auxiliar o homem, mas não numa lógica de ser inferior, irracional e objeto, onde ele não será descartado porque não serve mais, não será abatido para consumo, não será explorado para trabalho sofrido, não será aviltado por demandas emocionais humanas, não será abandonado, não será coisificado. Nem será humano. É bicho convivendo no planeta, tem fome, tem frio, sente e precisa de amor. Precisa ser bicho!

Ana Terra Oliveira é moradora de São Lourenço, Psicóloga, Escritora e Contadora de Histórias.

Crônicas da Terra – Em caso de amor: deixar fluir

Em caso de amor: deixar fluir

Ainda que eu falasse a língua dos anjos sem amor eu nada seria. É o que ouvimos muito falar. E falamos muito sobre o amor, mas muito pouco sentimos e vivemos o amor. Nossas mentes entendem o conceito de amar. Depois de Jesus, o amor deve ser o substantivo mais falado de todos os tempos. Mas nem sempre sentimos o amor, porque falamos e pensamos demais. Falamos na pretenção de alcançar, mas não conseguimos realizar. Realizar o amor em nós. Eis o desafio.

E como realizar o amor? Muitos exemplos já foram dados, muitas explanações já foram lançadas, passo-a-passo descritos.

Importantíssimos, claro. Sem eles estaríamos tateando procurando os óculos na escuridão. Eles nos ajudam a ver e abrir caminhos. Então agora deveríamos partir para a ação. Para a realização. Talvez o problema não seja o não amor, porque o amor existe abundante em algum lugar dentro de nós. Talvez a questão seja as barreiras que colocamos que impedem que o amor flua. Em caso de amor, que o amor flua livremente.

Encontrar as brechas, aquela deixa para o amar, os furos, as fendas onde ele jorra amor puro. Sabe aquela fenda na parede, no meio da imensidão de concreto? E bem ali, uma plantinha ousa e desponta, e cresce e floresce? É bem ali. O amor sempre vai fazer a força de romper, porque seu aspecto natural é fluido e gregário. O amor é como um rio que corre por caminhos sinuosos, vence obstáculos, em volta dele crescem árvores, animais bebem, peixes nadam alegres, vilas com suas casas se erguem, mulheres com seus panos e bacias e meninos na cintura a lavar e cantar, cântaros nas cabeças se equilibram. O amor é água de beber, água boa que lava a alma.

Há quem flua com amor abundante, formando correntezas e nas quedas fazem cachoeiras e seguem adiante. Há rios mais intermitentes, que só se dão dependendo das raras condições ambientais. Há outros que são oásis no deserto. E há quem reza para que um fiapo de àgua desponte. Eu sei que muitos que vivem na aridez não sabem deixar sair das entranhas a água, que fica bem profunda escondida no subsolo.
Aprender a brotar, solucionar o problema da àgua, pois àgua tem é muita, mas se esconde lá no fundinho d’alma. Expressar o amor e deixar fluir. Mas há quem polua suas próprias águas com insensatez. Matam rios com lama. Matam sonhos, matam peixes, matam esperanças. É melhor matar a sede e matar a secura do coração.

Dizem que é preciso conscientizar, e vivemos a geração que teve mais informação, informações sobre preservação ambiental, sobre os relacionamentos humanos, as campanhas de solidariedade e cooperação. Mas mesmo assim, sendo a geração mais conscientizada da história, ainda se joga papel no chão e canudinhos na areia, tracam-se insultos no trânsito e pouca gentileza na hora do pagamento no caixa de supermercado, ali nem sempre se oferecem olhares e nem sorrisos, mas muitas sacolinhas. Ainda fazemos guerras, oprimimos, abusamos e criamos fofocas, apontamos os defeitos, e nos achamos muito justos com nossas balanças a julgar e pesar a vida do outro.

Somos da geração instruída, conscientizada. Somos da época das tecnologias e da globalização. Mas ainda algo acontece que não foi tocado.

Um lugar dentro do coração ainda não foi tocado. A barreira é o egoísmo. Mas eu sei que a àgua é abundante, que dentro tem água pura e boa. Peixes nadam em mim, sereias cantam nos oceanos canções de amor, pássaros voam nos céus de minhas praias, e crianças brincas alegres, ali homens trabalham com respeito a todos os seres, e paz reina. Eu sei que este lugar existe dentro de mim. A água é maior do que qualquer egoísmo, as barreiras são frágeis diante da força da fé, só um pouco de persistência e coragem e entrega. E no tempo do era uma vez esta história sobre o amor tem promessa de renovação. É tempo de se transformar, de mover as àguas, deixar fluir. E veio o tempo que a àgua contida desaguou, e os mares mortos conheceram vida.

Ana Terra Oliveira é moradora de São Lourenço, Psicóloga, Escritora e Contadora de Histórias.

Crônicas da Terra- Qual o princípio da alegria?

Qual o princípio da alegria?

Por Ana Terra Oliveira

Nós estamos muito acostumados a viver de extremos e buscar alegria no muito. Ou isto, ou aquilo. Ser ou não ser. Chegar ou partir e viver intensamente. Mas nem sempre a vida é 8 ou 80. Será que o cálculo pode ser outro? A vida implica sim em escolher o lado que queremos estar. Mas escolher o lado em que queremos estar não implica em oscilar entre as ilusões que criamos do que seria viver intensamente com alegria. Viver intensamente é viver em equilíbrio, cuidar do seu lugar no mundo, da sua vida com harmonia.

Eu observo, e muitas vezes já senti, o perigo que é crer que as alegrias estão no muito. E o que é esse muito? Estamos viciados em buscar sempre por altas emoções e altas sensações. Neste caso realmente podemos dizer que buscamos viver perigosamente. É um perigo pois nos colocamos em situação de contínuo estresse, contínua insatisfação e frustração, pois nada que não seja o “muito” nos contenta. E nunca nos deixam contentes, pois o princípio da alegria não se encontra nestes lugares onde buscamos. É bom se perguntar: qual o princípio da alegria?

Possuímos a crença de que ser feliz e estar alegre é sempre ter muito. Muito dinheiro, muitas viagens, muitos prazeres, muita comida na dispensa, na geladeira, e comer muito. Não só comer muito, mas comer aquilo que exalta as altas sensações, que na verdade é uma bomba prestes a explodir. Hoje em dia comer uma fruta doce não é assim tão doce para muitas pessoas. Aí, doce mesmo é comer um doce de fruta com muito doce. Será que a vida será mais doce com tanto doce? Ou seria dizer: açúcar? As vezes pode ficar bem ácida, porque o doce de uma vida doce é a suavidade com que é vivida. Onde tudo tem seu limite, seu lugar, sua utilidade e sua beleza com simplicidade.

O hábito de buscar altas emoções e altas sensações cria excessos e traz desequilíbrios. Bem sabemos que bipolaridade quando tratada produz incrível alívio e paz. Só para dar um exemplo. Tudo que passa do limite é excesso e ocupa espaço, ou as vezes nem ocupa, só bagunça, como aquele objeto que você não sabe onde colocar, nem para que serve, mas continua guardando. Tudo que passa do limite não tem utilidade porque o nível de saturação não permite que seja útil. Lembra da água com açúcar? Chega uma hora que o pozinho vai precipitar no fundo e não vai ser dissolvido. São as leis da vida. Quando passa do limite vira extremo e perde a utilidade e muitas vezes começa a dar problema. Excesso de pensamentos cria muita agitação e ansiedade. Excesso de fala faz a voz perder a voz. Excesso de opiniões sobre os outros faz o outro desaparecer para nós, pois passamos a ver só as opiniões e não o outro realmente, que está bem além de qualquer opinião. Excessos… Excessos…

A gente sabe também que o número de hemácias no sangue ou de vitaminas no corpo nunca pode estar aquém. O aquém também não tem utilidade, não ocupa o espaço que deveria ocupar para que as coisas fluam e não cumpre a função. Água pouca não pode mover moínhos. Falta de afeto também não move corações, as vezes pode até criar indiferenças e distâncias tão longas entre os olhares que criam corações frios e solitários, e corações solitários não movem sorrisos. Mas também sair por aí buscando 1 milhão de seguidores não garante alegrias.
É preciso viver na medida certa. E digo para vocês, essa medida certa pode ser bem intensa, pode ser infinita, pode ser até sem limites.

Parece até controverso e difícil de entender, verdade? Dá um nó na cabeça! Mas eu penso que a questão são os princípios. É uma questão de princípio. O excesso, a falta, o sem limite, o além do limite é tudo aquilo que está fora dos princípios corretos. A medida não tem uma forma onde todos cabem. Cada um sabe o número da sua camisa. Mas não adianta vestir qualquer camisa. Eu não visto qualquer camisa. Minha camisa tem princípios. E para as alegrias também é assim!

A alegria é encontrar a resposta certa, viver buscando a resposta, não se contentar com a mesma resposta. Aprender sempre, inovar sempre, mudar, quem sabe, fazer diferente. E onde está a resposta? Novamente me pergunto: qual o princípio da alegria? Em quais princípios buscamos alegrias? Se forem aqueles onde as alegrias moram, é possível encontrar.

Ana Terra Oliveira é moradora de São Lourenço, Psicóloga, Escritora e Contadora de Histórias.

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