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Certos usos irracionais – Crônicas da Terra

“Os animais são seres irracionais”. Essa foi uma máxima cultivada pelos seres humanos durante muito tempo como forma de diferenciá-los dos outros animais, afirmando que o homem é o único animal racional. Mas, depois dos estudos sobre inteligência e outras habilidades essa máxima não é uma verdade assim tão máxima. Muitos animais desenvolvem inteligência, capacidades cognitivas, e conceitos abstratos como demonstrar afetos, cuidado, proteção, carinho e sentimentos. Até mesmo podem ser muito mais sensíveis e perceptíveis aos ambientes e aos estados emocionais dos outros.

E vale pensar: o homem com toda a sua razão tem sido razoável? Tem utilizado suas capacidades para criar uma humanidade mais equilibrada, coerente, e consciente? Bem sabemos que razão não envolve só o racional. A lógica é apenas uma forma de razão. Mas se olharmos somente pela lógica racional, podemos questionar, temos sido lógicos? Até mesmo a lógica está sendo trocada por comportamentos e hábitos ilógicos.

Por aí é possível ver de tudo, ver pessoas agindo basicamente levadas pelos impulsos materiais em busca de prazer que pode gerar muito desprazer. Se formos avaliar melhor, se o homem estivesse conectado com o próprio instinto compreenderia a necessidade de se colocar limites em favor da preservação da vida. E se o homem estivesse conectado com a própria natureza compreenderia a necessidade de se colocar limites em favor da preservação do equilíbrio biopsicosocioespiritual. Ou seja, o papel do instinto funcionaria para preservar a vida, o papel da cultura funcionaria como forma de instruir, educar e formar pessoas conscientes. Instinto, natureza e cultura trabalhando pela integridade hunana.

Mas, para ter uma idéia, estudiosos dizem que o homem vive desconectado do próprio instinto e para ele não há limites, limites para os abusos que ele tem submetido ao corpo, abuso de sensações físicas e emocionais, uso de entorpecentes, tudo aquilo que vem causando malefícios à saúde integral. Por exemplo, um pássaro ao experimentar algum alimento em desacordo, tóxico, logo o abandona, pois o instinto mostra que poderá levá-lo à morte. Mas o homem, ao contrário, desconectado do instinto segue utilizando tóxicos, seja através de alimentos com agrotóxicos, seja através de cosméticos e uma série de produtos químicos não naturais e prejudiciais, seja explicitamente através de uso indiscriminado de remédios e pior ainda através de drogas. Isso existe, devido também a uma desconexão da cultura de valores humanitários, e valores da natureza consciente.

São os usos. A desconexão. A dissociação. Usos ilógicos. Usos irracionais. Usos nada razoáveis. E se um dia acreditou-se que os homens são animais racionais e os outros animais são seres irracionais este pensamento fez o homem achar que era uma raça privilegiada e superior.

Um certo egocentrismo humano de achar que é o centro do universo e que tudo o mais existe para satisfazê-lo.

Animais existem para servir ao homem? E tal lógica se perpetuou ao ponto da relação do homem com o animal ser pautada na exploração e na relação mercadológica. O homem produz animais, o homem cria animais para trabalhar para ele, o homem cuida da saúde do animal para vendê-lo ao consumo. O homem consome animais, usa animais. Para inúmeros fins. Desconhecemos muitos dos fins. Nem temos noção do quanto os animais são explorados. Nem proporção. As pessoas também tem animais de estimação como forma de satisfazer as carências emocionais, na maioria das vezes isso é bem inconsciente. É verdade que não é sempre assim e nem se pode generalizar, o movimento de uma lógica correta e amorosa para com os animais existe e é forte. Mas, é preciso ver que o velho ainda existe e que precisa ser potencialmente transformado.

Existe! O homem tem privilegiado ter animais de estimação em detrimento de relações humanas. Talvez porque em decorrência do uso, o animal no lugar de objeto, não fala, não expressa opiniões, não incomoda, pois se incomodar é mais fácil controlá-lo. Ou mesmo desfazer-se dele quando necessário. Isso é possível na relação com coisas. Coisas podem ser descartadas quando não servem mais. E mesmo assim o animal nunca substituirá a relação que se faz necessária ser estabelecida entre humanos. De outra forma, um animal quando tratado em sua dignidade pode ser um bom amigo, um bom parceiro, um companheiro, é o caso de animais que verdadeiramente são de estimação, não que são tratados como humanos, isso nunca, mas porque são estimados, são tratados como iguais em direito de dignidade.

Apesar de toda a quebra de paradigmas, a crença é arraigada e até as intenções elevadas podem estar contaminadas por esta visão de uso e posse, de mercado, de exploração. Esses dias eu estava lendo uma matéria sobre gatos onde se dizia que os gatos são seres especiais, capazes de purificar energeticamente o ambiente. Até aí tudo bem, porque os gatos são realmente incríveis, dóceis, amorosos, bons companheiros, ótimas companhias. Mas o que chamou a atenção foi a recomendação: se morar mais de uma pessoa na casa o ideal é possuir mais de um gato para que a carga energética negativa gerada seja distribuída. Então pensei: legal não sobrecarregar, mas não seria melhor buscar em primeiro lugar cultivar um ambiente saudável, com relações amorosas para uma atmosfera leve para que o próprio animal possa usufruir desta atmosfera sem precisar ter que servir de uso como purificador?

Se queremos trazer dignidade para a vida na Terra precisamos ultrapassar essa visão de uso como coisa, exploração e mercado. O animal não existe para ser usado. Ele existe e precisa ser respeitado, viver sua vida de bicho e até mesmo pode contribuir e auxiliar o homem, mas não numa lógica de ser inferior, irracional e objeto, onde ele não será descartado porque não serve mais, não será abatido para consumo, não será explorado para trabalho sofrido, não será aviltado por demandas emocionais humanas, não será abandonado, não será coisificado. Nem será humano. É bicho convivendo no planeta, tem fome, tem frio, sente e precisa de amor. Precisa ser bicho!

Ana Terra Oliveira é moradora de São Lourenço, Psicóloga, Escritora e Contadora de Histórias.

Crônicas da Terra – Em caso de amor: deixar fluir

Em caso de amor: deixar fluir

Ainda que eu falasse a língua dos anjos sem amor eu nada seria. É o que ouvimos muito falar. E falamos muito sobre o amor, mas muito pouco sentimos e vivemos o amor. Nossas mentes entendem o conceito de amar. Depois de Jesus, o amor deve ser o substantivo mais falado de todos os tempos. Mas nem sempre sentimos o amor, porque falamos e pensamos demais. Falamos na pretenção de alcançar, mas não conseguimos realizar. Realizar o amor em nós. Eis o desafio.

E como realizar o amor? Muitos exemplos já foram dados, muitas explanações já foram lançadas, passo-a-passo descritos.

Importantíssimos, claro. Sem eles estaríamos tateando procurando os óculos na escuridão. Eles nos ajudam a ver e abrir caminhos. Então agora deveríamos partir para a ação. Para a realização. Talvez o problema não seja o não amor, porque o amor existe abundante em algum lugar dentro de nós. Talvez a questão seja as barreiras que colocamos que impedem que o amor flua. Em caso de amor, que o amor flua livremente.

Encontrar as brechas, aquela deixa para o amar, os furos, as fendas onde ele jorra amor puro. Sabe aquela fenda na parede, no meio da imensidão de concreto? E bem ali, uma plantinha ousa e desponta, e cresce e floresce? É bem ali. O amor sempre vai fazer a força de romper, porque seu aspecto natural é fluido e gregário. O amor é como um rio que corre por caminhos sinuosos, vence obstáculos, em volta dele crescem árvores, animais bebem, peixes nadam alegres, vilas com suas casas se erguem, mulheres com seus panos e bacias e meninos na cintura a lavar e cantar, cântaros nas cabeças se equilibram. O amor é água de beber, água boa que lava a alma.

Há quem flua com amor abundante, formando correntezas e nas quedas fazem cachoeiras e seguem adiante. Há rios mais intermitentes, que só se dão dependendo das raras condições ambientais. Há outros que são oásis no deserto. E há quem reza para que um fiapo de àgua desponte. Eu sei que muitos que vivem na aridez não sabem deixar sair das entranhas a água, que fica bem profunda escondida no subsolo.
Aprender a brotar, solucionar o problema da àgua, pois àgua tem é muita, mas se esconde lá no fundinho d’alma. Expressar o amor e deixar fluir. Mas há quem polua suas próprias águas com insensatez. Matam rios com lama. Matam sonhos, matam peixes, matam esperanças. É melhor matar a sede e matar a secura do coração.

Dizem que é preciso conscientizar, e vivemos a geração que teve mais informação, informações sobre preservação ambiental, sobre os relacionamentos humanos, as campanhas de solidariedade e cooperação. Mas mesmo assim, sendo a geração mais conscientizada da história, ainda se joga papel no chão e canudinhos na areia, tracam-se insultos no trânsito e pouca gentileza na hora do pagamento no caixa de supermercado, ali nem sempre se oferecem olhares e nem sorrisos, mas muitas sacolinhas. Ainda fazemos guerras, oprimimos, abusamos e criamos fofocas, apontamos os defeitos, e nos achamos muito justos com nossas balanças a julgar e pesar a vida do outro.

Somos da geração instruída, conscientizada. Somos da época das tecnologias e da globalização. Mas ainda algo acontece que não foi tocado.

Um lugar dentro do coração ainda não foi tocado. A barreira é o egoísmo. Mas eu sei que a àgua é abundante, que dentro tem água pura e boa. Peixes nadam em mim, sereias cantam nos oceanos canções de amor, pássaros voam nos céus de minhas praias, e crianças brincas alegres, ali homens trabalham com respeito a todos os seres, e paz reina. Eu sei que este lugar existe dentro de mim. A água é maior do que qualquer egoísmo, as barreiras são frágeis diante da força da fé, só um pouco de persistência e coragem e entrega. E no tempo do era uma vez esta história sobre o amor tem promessa de renovação. É tempo de se transformar, de mover as àguas, deixar fluir. E veio o tempo que a àgua contida desaguou, e os mares mortos conheceram vida.

Ana Terra Oliveira é moradora de São Lourenço, Psicóloga, Escritora e Contadora de Histórias.

Crônicas da Terra- Qual o princípio da alegria?

Qual o princípio da alegria?

Por Ana Terra Oliveira

Nós estamos muito acostumados a viver de extremos e buscar alegria no muito. Ou isto, ou aquilo. Ser ou não ser. Chegar ou partir e viver intensamente. Mas nem sempre a vida é 8 ou 80. Será que o cálculo pode ser outro? A vida implica sim em escolher o lado que queremos estar. Mas escolher o lado em que queremos estar não implica em oscilar entre as ilusões que criamos do que seria viver intensamente com alegria. Viver intensamente é viver em equilíbrio, cuidar do seu lugar no mundo, da sua vida com harmonia.

Eu observo, e muitas vezes já senti, o perigo que é crer que as alegrias estão no muito. E o que é esse muito? Estamos viciados em buscar sempre por altas emoções e altas sensações. Neste caso realmente podemos dizer que buscamos viver perigosamente. É um perigo pois nos colocamos em situação de contínuo estresse, contínua insatisfação e frustração, pois nada que não seja o “muito” nos contenta. E nunca nos deixam contentes, pois o princípio da alegria não se encontra nestes lugares onde buscamos. É bom se perguntar: qual o princípio da alegria?

Possuímos a crença de que ser feliz e estar alegre é sempre ter muito. Muito dinheiro, muitas viagens, muitos prazeres, muita comida na dispensa, na geladeira, e comer muito. Não só comer muito, mas comer aquilo que exalta as altas sensações, que na verdade é uma bomba prestes a explodir. Hoje em dia comer uma fruta doce não é assim tão doce para muitas pessoas. Aí, doce mesmo é comer um doce de fruta com muito doce. Será que a vida será mais doce com tanto doce? Ou seria dizer: açúcar? As vezes pode ficar bem ácida, porque o doce de uma vida doce é a suavidade com que é vivida. Onde tudo tem seu limite, seu lugar, sua utilidade e sua beleza com simplicidade.

O hábito de buscar altas emoções e altas sensações cria excessos e traz desequilíbrios. Bem sabemos que bipolaridade quando tratada produz incrível alívio e paz. Só para dar um exemplo. Tudo que passa do limite é excesso e ocupa espaço, ou as vezes nem ocupa, só bagunça, como aquele objeto que você não sabe onde colocar, nem para que serve, mas continua guardando. Tudo que passa do limite não tem utilidade porque o nível de saturação não permite que seja útil. Lembra da água com açúcar? Chega uma hora que o pozinho vai precipitar no fundo e não vai ser dissolvido. São as leis da vida. Quando passa do limite vira extremo e perde a utilidade e muitas vezes começa a dar problema. Excesso de pensamentos cria muita agitação e ansiedade. Excesso de fala faz a voz perder a voz. Excesso de opiniões sobre os outros faz o outro desaparecer para nós, pois passamos a ver só as opiniões e não o outro realmente, que está bem além de qualquer opinião. Excessos… Excessos…

A gente sabe também que o número de hemácias no sangue ou de vitaminas no corpo nunca pode estar aquém. O aquém também não tem utilidade, não ocupa o espaço que deveria ocupar para que as coisas fluam e não cumpre a função. Água pouca não pode mover moínhos. Falta de afeto também não move corações, as vezes pode até criar indiferenças e distâncias tão longas entre os olhares que criam corações frios e solitários, e corações solitários não movem sorrisos. Mas também sair por aí buscando 1 milhão de seguidores não garante alegrias.
É preciso viver na medida certa. E digo para vocês, essa medida certa pode ser bem intensa, pode ser infinita, pode ser até sem limites.

Parece até controverso e difícil de entender, verdade? Dá um nó na cabeça! Mas eu penso que a questão são os princípios. É uma questão de princípio. O excesso, a falta, o sem limite, o além do limite é tudo aquilo que está fora dos princípios corretos. A medida não tem uma forma onde todos cabem. Cada um sabe o número da sua camisa. Mas não adianta vestir qualquer camisa. Eu não visto qualquer camisa. Minha camisa tem princípios. E para as alegrias também é assim!

A alegria é encontrar a resposta certa, viver buscando a resposta, não se contentar com a mesma resposta. Aprender sempre, inovar sempre, mudar, quem sabe, fazer diferente. E onde está a resposta? Novamente me pergunto: qual o princípio da alegria? Em quais princípios buscamos alegrias? Se forem aqueles onde as alegrias moram, é possível encontrar.

Ana Terra Oliveira é moradora de São Lourenço, Psicóloga, Escritora e Contadora de Histórias.

Publicado em:

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As pessoas não são flores de plástico – Crônicas da Terra

“Nem tudo são flores”, já diz o ditado. “Às vezes são espinhos”, diz o outro. São dizeres muito usados para expressar os desgostos das relações entre as pessoas. A questão é que nós nos decepcionamos porque esperamos por flores de plástico. São flores poposas aos olhos, cabos longos, folhas largas, mas totalmente vazias de seivas, com pétalas respingadas de gotas de orvalho que são como colas opacas em tecido endurecido. Elas nem mortas são pois nunca estiveram vivas. São apenas enfeites de veludo para imitar a alegria verdadeira de um doce jardim. Artifícios para quem quer ter beleza aos olhos sem o trabalho do cuidado diário.

Uma beleza tão artificial, imóvel, que é capaz de colorir, mas também de empoeirar-se como um objeto qualquer e não faz tintura. É capaz de permanecer intacta e não incomodar muito, desde o primeiro encontro, e nunca incomodam mesmo, pois mantêm certas aparências. Mas também nem são assim agradáveis, pois nunca, nunca serão capazes de produzir o próprio perfume.

As flores de verdade, ao contrário, vivem de fases, mudanças e estações. São tão mutáveis que aguçam a curiosidade e surpreendem. Há dias que as folhas estão tão rechonchudas de àgua que até parecem sorrir e chorar. Há dias que estão tão silenciosas que só galhos se veem. Outros dias estão mais gentis e exalam perfumes. E há aqueles que ficam emocionadas e coram as faces, vermelhas como as rosas, amarelas como os girassóis, ou sortidas como as petúnias.

As flores de verdade quando dispostas para viver parecem ouvir nossos segredos e nossas dores mais profundas e vibram por nossas conquistas. Embora as folhas não tenham olhos, elas nos observam. Embora os troncos sejam duros, tem um imenso coração. Elas passam por transformações, mas queremos ter a ilusão de que permanecem as mesmas sempre e que devem ser fiéis aos padrões antigos, ou se não são como gostaríamos nos frustramos largamente. Repito, as pessoas não são flores de plástico. Nós nos esquecemos que as flores de verdade não se compram em lojas de decoração.

As flores de verdade foram criadas pela natureza, passam por seus próprios processos e são livres, podem ser como gostariam de ser. Elas são tão cheias de qualidades que não podem ser definidas e estereotipadas. Quem já frequentou aulas de biologia sabe que pistíolo, filete e pedúnculo tem seus lugares. O erro é acreditar que o todo se resume pela parte. Os espinhos, meus caros, não representam a planta inteira!
E essa expectativa e essa euforia para que só existam flores acabam colocando ilusões nos olhos. É a imaturidade de quem não conhece os ciclos da vida e não consegue ver para além, pois vive em busca das cores dos imediatismos. E talvez nesse caso as relações baseadas em euforia e expectativas não se sustentem, pois buscam apenas prazeres e o calor dos momentos. Épreciso sabedoria! Só quem já presenciou e apreciou um ipê em flor sabe que ele passou por dias de galhos nus, sem qualquer indício de folhas.

Eu descobri e ainda ando investigando que as pessoas, e também nós, as vezes, queremos que a vida tenha os encantos das flores sem termos que trabalhar na semeadura, nas regas, nas regras e nas podas. Nunca queremos podas. Podar os nossos maus hábitos, maus modos, maus olhos. E só queremos e exigimos do outro que nos dê flores. Nunca oferecemos algo de nós, não queremos ter o trabalho de cultivar as pessoas, de distribuir amor, gentilezas. É saber que viver relações positivas necessitam de doação, cuidado, expressão de afetos, de trocas gasosas, digo, energéticas, e que sejam positivas, que contribuam.

Como flores de verdade, todas precisam de carinho, de afeto, pois sentem e se importam, estão vivas, e nós também nos afetamos, também nos machucamos, também precisamos de respeito, cuidado. Então, digo a você, cuidado como fala comigo, pois tenho pétalas muito sensíveis e as palavras, a violência dos gestos, podem ferir. As vezes ferem mais do que os espinhos, pois eles não atacam por si mesmos. Talvez eles indicam que você não foi cuidadoso suficiente ao tocar uma rosa, você passou dos limites. É tudo uma questão de aprendermos a conviver uns com os outros dentro dos limites e sermos nós mesmos.

O mal deste século é esse péssimo hábito de querer obter relações fáceis, minimizar os custos, os esforços de termos que estar diante de uma planta inteira, que também fala, pensa por si, com certeza é diferente, pois não foi feita em cadeia para ser vendida em loja de decoração. O mal deste século é optar por viver em um mundo tão falso, tão plástico, achar que tudo e todos são assim descartáveis. Quanto mais ansiedade, ranger de dentes e doenças somáticas teremos que administrar para continuar vivendo em relações superficiais, artificiais, reprimindo os afetos, sem modulá-los com amor?

O mundo está saturado por toda essa vida plástica que inventados. E que acabamos por querer descartar a qualquer custo. Quanto plástico produzimos, quantos descartáveis!!! Mas descartável para onde? Pois tudo está sendo poluído. Nossos oceanos interiores estão sendo sufocados! E os oceanos da Terra? Será que essa é a expressão das nossas relações? Oceanos boiando em plásticos e descartáveis? A plástica que esconde o natural.

Com medo dos espinhos nos envolvemos em plástico-bolha. Vivemos ali naquela bolha, que é tão isolante e nada contátel. E pela euforia por flores buscamos os artificialismos. Mas lembrem-se: nas lojas de decoração o que se vende são flores tão intemperáveis, que são embaladas em sacolas e depois ficam expostas em vasos sem terra e àgua. Nunca poderão ter o gosto da vivacidade de crescerem em um jardim, não atraem borboletas, nem abelhas, nem beija-flores.

Se queremos a vida de um jardim precisamos cultivar flores de verdade, árvores vivazes de seiva. Pode ser trabalhoso, mas oferecem prazeres verdadeiros, onde podemos desfrutar dos outonos, invernos, verões e primaveras. Quem sabe assim salvaremos o planeta. Menos vida plástica, por favor! Menos plástico, por favor!

Ana Terra Oliveira é moradora de São Lourenço, psicóloga, escritora e contadora de histórias

Publicado em

http://www.correiodopapagaio.com.br/opiniao/as-pessoas-no-so-flores-de-plstico

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Sob um céu brumadinho – Crônicas da Terra

     Não foi o chão que tremeu, não foi o céu que desaguou, não foi o mar que recuou e jogou ressaca pelas beiras. Desta vez não. Desta vez foi o homem que fez transbordar as beiras de suas próprias construções, de seus próprios lagos e mares. Lagos onde eles depositam seus dejetos, tudo aquilo de que eles rejeitam. Rejeitos que tiraram o chão de muita gente, machucaram corações, fizeram chover lágrimas dos olhos – lágrimas marrons da lama que escorreu nas terras das brumas. Ali onde a manhã se levanta com nuvens a pairar no ar em um céu brumadinho.

  Eu que frequentei a região de Brumadinho durante oito anos e morei ali nos últimos três, desfrutei do bom clima e de uma natureza exuberante a pintar o horizonte com muitas matas fechadas, um verde a perder de vista, águas abundantes a escorrer pelas pedras e pássaros a cantar bonito sem feriados. Naquelas paragens semeei flores, plantei hortas, pedalei por estradas de terra, escrevi poemas, avizinhei-me de toda a gente. Espalhados estávamos pelos inúmeros distritos e povoados onde algumas casas distavam umas das outras apenas metros entre janelas , enquanto outras ficavam escondidas a quilômetros no silêncio, em estradas atravessadas por uma ponte de rio, um trilho de trem, uma plantação de mexericas. E na estrada, no mais tardar, novamente surgiam pés de couve, galinhas e plantações de alface e novas janelas onde as caras se encontravam para saudar com um “bom dia”.

  A região das brumas é muito convidativa, eu vi gente se mudar da Bahia indo morar ali em busca dos ares puros e onde a promessa de saúde parece boa – só perto da minha casa conheci três famílias. Vi gente fugir de seca em busca de prados e campinas verdejantes. Vi gente fugir das buzinas dos carros sob arranha-céus, os 40°C do meio-dia e as miragens de asfalto da grande metrópole em busca da paz das brumas. Aí eu vi foi muita gente! Vi gente em busca de novas experiências e oportunidades. Mas entre as brumas vi também o bem e o mal enredados lado a lado. Vi gente sofrida, comunidades aspirantes por vida digna, índices crescentes de alcoolismo, uso de drogas, desequilíbrios mentais e famílias desestruturadas. Uma região permeada por vidas emaranhadas entre abundância, belezas naturais, riquezas, bem-estar e vidas sufocadas por dramas humanos e suas misérias.

   E morando ali, a gente, o povo, até sabia, mas não fazia idéia da dimensão do que se escondia entre tantas belezas, tanta árvore e entre homens e mulheres com suas histórias. Se escondiam os campos minados, os buracos cortados, e a exploração mineral. É assim, porque entre uma árvore e outra lá se foi a visão do todo! Do meu quintal eu escutava o trem apitar e vagões deslizavam para cima e para baixo, vezes ao dia, carregados com um pó escuro avermelhado. Quando eu saia de casa topava com caminhões na estrada para cima e para baixo adiante do meu carro poeirentos de um pó escuro. Mas a gente não pensava: “o que isso tem a ver com a minha vida?”. A mina estava lá, mineiros a trabalhar, outros estavam cá, e se as poeiras levantassem pelas dores da vida logo precipitavam e tudo seguia e parecia fluir, como fluía o rico município, com o PIB da mineração, e os vagões abarrotados. A gente desconfiava, mas nem imaginava conceber que sucederia tamanha destruição.

  Há poucos meses me mudei de Brumadinho, não mais acordo com as brumas, não vejo todas as belezas naturais, nem meus vizinhos, nem as risadas das mulheres e crianças quando nos reuníamos para pintar e costurar na associação. Não ouço também meu marido voltar  do trabalho a dizer das histórias alegres e também das tristes que haviam por lá. Não vejo os vagões, nem o pó, nem a poeira, que por aqui são outras. Mas a questão é que a barragem de Córrego do Feijão se rompeu. Não vi de perto a lama destruidora que invadiu nossos janeiros, mas eu vi a dor. A dor daqueles com quem compartilhei um mesmo céu. A dor que também é nossa.

  E agora? Houve descaso? Houve imprevidência de autoridades? Houve negligência? Podemos falar em crime e vontade de lucrar mais? E eu penso na responsabilidade. Que situação! Refeitórios, prédios e barragem posicionados em locais estranhos, não parecendo ter lógica. E essa sirene que não toca?! Eu também me pergunto: “o que vale?”. Vale tanta exploração? Um país em que a exploração vem camuflada de desenvolvimento econômico, mas para o desenvolvimento econômico é aceitável a degradação humana e ambiental? Vale um minuto de silêncio para dizer um basta! Vale agora a paz! Paz para homens, mulheres e crianças que merecem respeito! Paz para a Terra que clama por preservação! Paz para os animais que querem viver com dignidade.

  Agora só consigo pensar na responsabilidade: “o que a triste situação tem a ver com a minha vida?”. Não estou mais lá, mas agora sinto fortemente a impressão: “isso tem a ver com a minha vida sim”. Para onde iam todos aqueles vagões que vi passar? Para quê tantos caminhões? O que fazem com tanto minério?

   Automóveis, celulares, arame farpado, pregos, martelos, foices, facas… e garfos e colheres, motores, tratores, rodas de bicicletas, fogões, fornos, computadores, grampeadores e furadores. Uma infinidade de eletrônicos, eletrodomésticos e mesas, cadeiras, armários, camas, geladeiras, fornos microondas, panelas. Ziperes de roupa, botões, fivelas de cinto. Janelas e portas e ônibus e aviões e casas e prédios…

    E sem contar que quase tudo vem de uma indústria que moveu estruturas e máquinas feitas de aço e ferro-ligas. E agora eu entro nos supermercados e vejo os alimentos processados e embalados nas prateleiras e me lembro do pó escuro de Brumadinho.

   São muitas as coisas que me fazem pensar que eu faço parte de uma teia, como uma teia de aranha, que embora possa ser invisível e transparente, cada fio está bem entrelaçado, e tudo, mas tudo está conectado. Embora não vejo o fio que nos liga, estamos conectados! Vale um minuto de silêncio para pensar: “o que é realmente necessário em nossas vidas, o que é essencial, o que é o supérfluo, o que é excesso?”. Concordo plenamente com você que a tecnologia é importante. Mas em uma era de aço, petróleo, lucro e consumismo em primeiro lugar, vale nos perguntar: “quando vamos definitivamente optar pelo sustentável, pelo responsável, e pelo respeitável?”.

    Que a paz seja o nosso guia, paz para o sistema econômico e social, paz para os nossos modos de vida, que precisam ser éticos, certamente reinventados, muitas vezes superados e mais ainda transformados. E eu que sou parte da teia posso fazer “algo” agora, é também a minha responsabilidade!

Ana Terra Oliveira é psicóloga, escritora e contadora de histórias.

Texto publicado na Coluna Crônicas da Terra por Ana Terra Oliveira

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