Arquivo da categoria: Escritos, poesias, contos, histórias e cantigas

Escritos, poesias, pensamentos de outros que valem a pena conhecer!

Os Reis Magos

Cantiga dos Reis

Santos Reis, santos coroados
Vinde ver quem vos coroou
Foi a virgem, mãe sagrada,
Quando por aqui passou.
O caminho era torto
Uma estrela vos guiou
Em cima de uma cabana
Essa estrela se pousou.
A cabana era pequena 
Não cabiam todos três;
Adoraram Deus-Menino
Cada um por sua vez.
Cantiga Popular de Barcelos,
recolhida por Luísa Miranda

A História

Num país distante viviam três homens sábios que estudavam as estrelas e o céu. Um dia viram uma nova estrela muito mais brilhante que as restantes, e souberam que algo especial tinha acontecido.

Perceberam que nascera um novo rei e foram até ele.

Os três reis magos, Gaspar, Melchior e Baltazar, levavam presentes, e seguiam a estrela que os guiava até que chegaram à cidade de Jerusalém.

Aí perguntaram pelo Rei dos Judeus, pois tinham visto a estrela no céu.

Quando o rei Herodes soube que estrangeiros procuravam a criança, ficou zangado e com medo. Os romanos tinham-no feito rei a ele, e agora diziam-lhe que outro rei, mais poderoso, tinha nascido?

Então, Herodes reuniu-se com os três reis magos e pediu-lhe para lhe dizerem quando encontrassem essa criança, para ele também a ir adorar.

Os reis magos concordaram e partiram, seguindo de novo a estrela, até que ela parou e eles souberam que o Rei estava ali.

Ao verem Jesus, ajoelharam e ofereceram-lhe o que tinham trazido: ouro, incenso e mirra. A seguir partiram.

À noite, quando pararam para dormir, os três reis magos tiveram um sonho. Apareceu-lhe um anjo que os avisou que o rei Herodes planejava matar Jesus.

De manhã, carregaram os camelos e já não foram até Jerusalém: regressaram à sua terra por outro caminho.

José também teve um sonho. Um anjo disse-lhe que Jesus corria perigo e que ele devia levar Maria e a criança para o Egipto, onde estariam em segurança. José acordou Maria, prepararam tudo e partiram ainda de noite.

Quando Herodes soube que fora enganado pelos reis magos, ficou furioso. Tinha medo que este novo rei lhe tomasse o trono.

Então, ordenou aos soldados para irem a Belém e matarem todos os meninos com menos de dois anos. Eles assim fizeram.

As pessoas não gostavam de Herodes, e ficaram a odiá-lo ainda mais.

Maria e José chegaram bem ao Egipto, onde viveram sem problemas.
Então, tempos depois, José teve outro sonho: um anjo disse-lhe que Herodes morrera e que agora era altura de regressar com a família a Nazaré à sua casa.

Depois da longa viagem de regresso, eles chegaram enfim ao seu lar.

Fonte: http://www.historiasinfantis.org/os-tres-reis-magos/

Paramahansa Yogananda – Um Poeta da Luz

SAMADHI

 
Levantados os véus de luz e sombra,

Evaporada toda a bruma de tristeza,
Singrado para longe todo o amanhecer de alegria transitória,
Desvanecida a turva miragem dos sentidos.

Amor, ódio, saúde, doença, vida, morte:
Extinguiram-se estas sombras falsas na tela da dualidade.

A tempestade de maya serenou
Com a varinha mágica da intuição profunda.

Presente, passado, futuro, já não existem para mim,
Somente o Eu sempiterno, omnifluente, Eu, em toda parte.

Planetas, estrelas, poeira de constelações, terra,
Erupções vulcânicas de cataclismos do juízo final,
A fornalha modeladora da criação,
Geleiras de silenciosos raios X, dilúvios de eletrões ardentes,
Pensamentos de todos os homens, pretéritos, presentes, Futuros,
Toda folhinha de grama, eu mesmo, a humanidade,
Cada partícula da poeira universal,
Raiva, ambição, bem, mal, salvação, luxúria,
Tudo assimilei, tudo transmutei
No vasto oceano de sangue de meu próprio Ser indiviso.

Júbilo em brasa, frequentemente abanado pela meditação,
Cegando meus olhos marejados,
Explodiu em labaredas imortais de bem-aventurança,
Consumiu minhas lágrimas, meus limites, meu todo.

Tu és Eu, Eu sou Tu,
O Conhecer, o Conhecedor, o Conhecido, unificados!

Palpitação tranquila, ininterrupta, paz sempre nova,
Eternamente viva.

Deleite transcendente a todas as expectativas da imaginação,
Beatitude do samadhi!

Nem estado inconsciente,
Nem clorofórmio mental sem regresso voluntário, 

Samadhi amplia meu reino consciente
Para além dos limites de minha moldura mortal
Até a mais longínqua fronteira da eternidade,
Onde Eu, o Mar Cósmico,
Observo o pequeno ego flutuando em Mim.
Ouvem-se, dos átomos, murmúrios móveis;
A terra escura, montanhas, vales são líquidos em fusão!Mares fluidos convertem-se em vapores de nebulosas! 

Om sopra sobre os vapores, descortinando prodígios.

Mais além,
Oceanos desdobram-se revelados, eletrões cintilantes,
Até que ao último som do tambor cósmico,
Transfundem-se as luzes mais densas em raios eternos
De bem-aventurança que em tudo se infiltra.

Da alegria eu vim, para a alegria eu vivo, na sagrada alegria,
Dissolvo-me.

Oceano da mente; bebo todas as ondas da criação.

Os quatro véus do sólido, líquido, gasoso, e luminoso,
Levantados.

Eu, em tudo, penetro no Grande Eu.

Extintas para sempre as vacilantes, tremeluzentes sombras,
Das lembranças mortais:
Imaculado é meu céu mental – abaixo, à frente e bem acima;
Eternidade e Eu, um só raio unido.

Pequenina bolha de riso, eu,
Converti-me no próprio Mar da Alegria.

Minha Chegada à Antiga-Nova Terra da América
Memórias adormecidas

De amigos outra vez a encontrar
saudaram-me – a mim, viajante de além mar –
Pois sentiam que eu viria
À terra dos Peregrinos para a ela prestar culto.
A praia adormecida é só um vulto.

Desfeita a luz do dia, seus contornos distantes
Desmaiam sob estrelas cintilantes.
A brisa sopra forte sob o céu.
Ideias inesperadas
Me invadem de esperança em tropel,
Suaves, doces, ricamente trabalhadas.
O corvo triste da melancolia
Pousou na minha mente. A alma ele queria,
A fim de minhas forças vencer pelo receio.
Então eu vislumbrei multidões e, no seu meio,
Alegre contemplei diáfanos amigos
Que agora vinham para estar comigo
Em jubiloso clamor. 

Poesia Africana

O meu pé de maracujá

        no fundo do meu quintal
nasce um pé de maracujá
não fui eu quem plantou
nem quem mandou plantar

        no fundo do meu quintal
cresce um pé de maracujá
não fui em plantou
nem quem mandou plantar

        batem crianças à porta
e pedem-me para apanhar
maracujás bem maduras
que eu não sei como cresceram
de um pé de maracujá
que cresce no meu quintal
não fui eu quem plantou
nem quem mandou plantar

        entram em alvoroço
e comem-nas com tal prazer
que nasce em mim a vontade
de no fundo do meu quintal
ir ou mandar plantar
tantos pés de maracujá
quantos puder semear

   Soneto ao mar

        Amanhã vou acordar cedinho
para ver o sol raiar
e iluminar o caminho
que ao mar me há-de levar

        de branco me vou vestir
e minhas tranças soltar
minhas tristezas despir
pra com lágrimas me lavar

        vou andar pelo caminho
ao som de hinos e cantos
que eu mesmo irei entoar

        irei muito de mansinho
e, enfim, afogarei meus prantos
no mar que os há-de levar

Anny Pereira/ Angola 

Extraído de: 

VASCONCELOS, Adriano Botelho de, org. Todos os sonhos. Antologia da Poesia  Moderna Angolana.  Luanda: União dos Escritores Angolanos “Guaches da Vida”,  2005.  593 p.

Poesia Africana

Lá no “Água Grande” a caminho da roça negritas batem que batem co’a roupa na pedra. Batem e cantam modinhas da terra. Cantam e riem em riso de mofa histórias contadas, arrastadas pelo vento. Riem alto de rijo, com a roupa na pedra e põem de branco a roupa lavada. As crianças brincam e a água canta. Brincam na água felizes… Velam no capim um negrito pequenino. E os gemidos cantados das negritas lá do rio ficam mudos lá na hora do regresso… Jazem quedos no regresso para a roça.

Alda Espírito Santo/São Tomé e Príncipe

 

AMOR FEINHO

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.

Adélia Prado )
(Do livro Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 97)

Parâmetro

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Deus é mais belo que eu.
E não é jovem.
Isto sim, é consolo.

Adélia Prado )

Via Láctea (Olávo Bilac)

(Olavo Bilac)

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”