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O ritual de limpeza de fim de ano – uma tradição milenar japonesa “OSOJI”

Eu cresci em uma família, que não é japonesa, mas que tem a tradição de limpar a casa no final do ano, fazer aquele faxinão, como diz minha mãe, uma limpeza para deixar a casa organizada e preparada para o próximo ano. Entrar no novo ano com tudo em seu devido lugar. A gente acordava cedo, já no mutirão da lavagem das janelas e portas e varandas e na poda de jardins. Dias seguidos dedicados a cada cômodo, lixando e encerando os tacos da sala e móveis de madeira, eliminando papéis velhos e cadernos usados, colocando em circulação roupas do guarda-roupa que não serviam mais, organizando as gavetas, as prateleiras, os livros, todos os armários. Um dia dedicado à cozinha, lavando todos os azulejos, e eliminando potes sem tampas.

Depois de tudo limpo e organizado tínhamos a doce alegria de contemplar, sentindo o cansaço do corpo, mas uma feliz exaustão de que algo dentro de nós também se organizou  e um feliz sentimento de vitória, de ter vencido o ano, terminado mais um ciclo, e era também uma preparação para o novo ano. É finalizar o ano em grande estilo. Uma arrumação que traz uma incrível sensação de prazer. eram estes sentimentos eu carregava dentro de mim. 

Curioso é que ser brasileiro é navegar em universos mesclados de tradições. Talvez muitas e muitas culturas tem esse hábito de limpar a casa no final do ano. Talvez esteja gravado no inconsciente coletivo, isso não sabemos… De onde vem a tradição da minha família? Também ainda não descobri. 

Fato é que bem recentemente eu descobri que os japoneses realizam uma tradição milenar de limpeza da casa no final do ano para fazer fluir a alma das coisas, dos ambientes, fluir as energias.

Conta a mitologia japonesa que tudo na natureza tem um kami. Um kami é um espírito que habita os elementos. Eles são espíritos ou divindades que habitam as forças da natureza, também habitam a matéria, o mundo físico e os objetos. Existem oito milhões de kami, esse é um número para dar uma proporção e dizer que eles são infinitos! Existe  o kami do sol, o kami da água, o kami do fogo, o kami da tempestade, do terremoto, da pedra, do rio, da árvore, da raposa, dentre os milhões.

E tudo o que existe tem um kami.

Eles podem ser também entidades com características específicas, como por exemplo de protetores, de guardiões, de guerreiros, de pescadores…

Podem habitar qualidades como a violência, a pobreza, a fluidez, a prosperidade, a alegria, dentre as infinitas qualidades que existem.

Ou eles podem ser também os espíritos dos antepassados.

Como são infinitos, eles vivem perto dos seres humanos e por todos os lugares e objetos, e nem todos os kamis são bons, muitos são maus, e habitam más energias e más qualidades.

É nas duas últimas semanas de dezembro,  numa fase de transição entre o ano velho e ano novo, que os japoneses realizam o ritual da Grande Limpeza e no dia 31 de dezembro, na véspera do ano novo, a última faxina do ano.

A Grande Limpeza é um ritual que se chama Osoji. Eles fazem uma grande limpeza, bem detalhada, limpando todos os cantos das casas, os templos, as ruas, os bairros, as praças, as escolas, os locais de trabalho. É realizado por todos, crianças e idosos, e nas áreas comuns fazem mutirões.

Osoji de fim de ano é um ritual para limpar o ambiente de toda a sujeira acumulada durante o ano. Limpar também não somente o aspecto material, mas as sujeiras espirituais acumuladas de energias negativas, maus pensamentos e sentimentos, é como lavar a alma. É um ritual de purificação dos ambientes. Uma limpeza para  libertar os ambientes de kami, espíritos que trazem más qualidades e energias e preparar a casa para a chegada de kami, aqueles espíritos que trazem bons fluidos. É momento de retirar objetos não usados há tempos e sem utilidade e descartar ou dar um outro destino, pois sem serem usados ficam parados e com energia parada.

Osoji é um ritual de preparação para dar boas vindas ao kami Toshigami-sama, a Deidade do Novo Ano, para que tudo ocorra bem no próximo ano. É também uma limpeza de gratidão, enquanto limpam, agradecem ao kami do ano pelas bençãos daquele ano que transcorrera e assim terminam o ano com bons sentimentos.

Osoji é uma tradição tão antiga, um ritual que passou a ser também uma filosofia de vida, uma filosofia de limpeza. Os japoneses que realizam esta prática com a devida consciência entendem que é um trabalho de limpeza física, de limpeza das energias materiais, mas é também um trabalho de purificação pessoal, e de tornar tudo sagrado. Muitos praticam este ritual sempre que necessário e possível, muitas e muitas vezes e fazem desta prática uma prática diária.

Osoji é uma prática meditativa de autoconhecimento, de purificação e harmonização da mente através do exercício de limpar coisas e ambientes.

Diz-se que quando se limpa e se organiza algo fora, algo dentro de nós também se organiza e se purifica. A forma como nos relacionamos com as coisas diz muito de como está a nossa vida interior, se está bagunçada, confusa, ou se está transparente, coerente, e tranquila.

A medida que limpamos serenamos a mente e podemos conhecer quem somos. Passamos grande parte do tempo olhando para fora e não olhamos para nós. Quando limpamos, olhamos para os objetos que estamos a limpar e também nos interiorizamos, olhamos para nós.

Quando limpamos a casa física, vemos toda a sujeira acumulada nela, todas as coisas que estão fora do lugar, aquilo que não serve mais, aquilo que pode ser consertado, aquilo que precisa ser desapegado, aquilo que precisa ser descartado.

Limpamos também a mente  e a alma, olharmos para nós mesmos e vemos tudo aquilo que está impuro em nós, que está desorganizado, que precisa ser consertado. Quais são nossas dificuldades, quais são nossos bens interiores preciosos que precisamos cuidar, quais são os sentimentos e pensamentos que devemos desapegar e jogar fora, quais são as boas ideias que devemos levar adiante, aquilo que precisa ser preservado.

Os zen budistas praticam constantemente o osoji. Os monges aprendem a limpar. Para eles tudo é natureza, nós somos natureza, os objetos são natureza, as plantas, os seres vivos. Todos merecem ser cuidados com o maior respeito. Tudo deve ser limpo e purificado com atenção e tratado com amor, cada objeto.

Osoji é uma prática realizada com cuidado, atenção, em silencio, em meditação e com amor. Assim, não é simplesmente limpar os ambientes e as coisas, mas é limpá-los com amor, com respeito por eles existirem e colocar neles as melhores energias e intenções,  é torná-los puros e sagrados. Limpando com a consciência do sagrado, os ambientes se tornam sagrados. Assim todos os ambientes são limpos como se limpa um santuário e dessa forma é possível viver o sagrado e comungar com o sagrado em todos os lugares. É viver um ritual onde pode-se desfrutar da mente serena, da paz interior. 

Todos estamos sempre a organizar e limpar e aproveitar o ato de limpar para vivenciar uma prática meditativa, entrar em contato consigo mesmo e vivenciar o sentido sagrado da existência é uma atitude inteligente que torna os momentos de limpeza momentos de fortalescimento da espiritualidade, do cultivo de boas energias e de grande crescimento pessoal.

Realizar a limpeza de ambientes com este sentido é abandonar aquela velha visão que considera que trabalhos de limpeza são indignos e devem ser realizados por pessoas consideradas inferiores. Algo que acontece muito no Brasil. Mas pelo contrário, esta prática vem nos mostrar que é a pratica das mais dignas e é uma honra poder limpar e tornar os ambientes sagrados. É um caminho de iluminação.

É tempo de praticar a grande limpeza de final de ano, organizar toda a casa e os ambientes, e que isto possa ser feito como um ritual de Osoji, pleno desta nova consciência, com a possibilidade de purificar o externo e nos purificarmos internamente. 

Eu pensei que neste ano, com tantos trabalhos na lista de tarefas, eu não conseguiria realizar a limpeza de final de ano. Mas vibrei quando passado o natal, tive um tempo para fazer esta prática. Na verdade, foi ter um tempo para mim mesma. Eu senti profunda alegria, ainda mais com esta nova consciência, com a consciência que traz o ritual de Osoji, que a cada dia compreendo mais e a cada dia vejo que vai tomando lugar nos meus dias durante todo o ano, quando estou em casa, no trabalho, sempre que posso organizar e limpar.  Cada dia mais percebo os benefícios da limpeza como prática de tornar puro, tornar sagrado, como prática de meditação. Eu sou adepta da limpeza profunda e de limpar com consciência.  

E você já fez a grande limpeza de final de ano? Aproveita que dia 31 está aí, e grande parte do mundo estará empenhada em limpar com alegria. O que está esperando? Vassoura e paninhos de limpeza são utensílios ao alcance de todos! 

Se você nunca teve este hábito, saiba, vai valer a pena! Desejo que neste ano possamos praticar Osoji sempre que necessário e possível. Os monges dizem que praticando Osoji poderemos mudar o mundo!

Osoji é para todos!

Agora, com uma nova consciência, você já sabe, limpar é um ato sagrado! 

Desejo a todos um bom Osoji! 

Akemashite Omedetou = “Feliz ano novo” em japonês

Yoi otoshi wo! ( よい お年 を ) = “Tenha um bom ano”