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Santo é o pecador que nunca desistiu -Crônicas da Terra

O santo atingiu a maturidade, penso eu. E por falar em maturidade, como tenho dito nos últimos tempos, quão benéfica é esta conquista! A maior conquista que alguém pode fazer. É atingir um estado de integridade pessoal que traz felicidade para si e para a sociedade. Mas como tornar-se uma pessoa madura? Primeiro tentar, depois não desistir, e no caminho se conhecer e se aprimorar.

Sabemos que estamos sempre buscando por uma vida fácil, uma vida de mínimos esforços e pagamos um preço altíssimo quando decidimos viver de forma superficial, sem aprofundar questões humanas e temas fundamentais para trazer sabedoria para a vida. Pagamos com prejuízos à qualidade de vida.

Nós nos habituamos a viver para satisfazer as necessidades materiais e os gozos dos sentidos. Muito além de consumir, e consumir bens e sensações, o que mais vale a pena na vida é investir em aprimorar-se e crescer interiormente. Embora pareça não ser tão mensurável, a verdade é que a única realidade que existe é o mundo invisível que criamos para viver com a forma de conversar, interagir, agir, o que pensar, o que sentir – são aquilo que faz o nosso mundo ser como é para nós: de paz ou de turbulência!

As vezes é mais fácil investir no carro, na casa, na beleza física, nos dentes… Não que não seja importante, mas é preciso também viver de forma mais profunda, porque o problema do homem e da sociedade sempre foi de natureza ética… E ser ético depende também de criar relações maduras. Ser uma pessoa madura exige trabalho, um trabalho que é revestido de autoconhecimento e transformação sistemática.

Santo é o pecador que nunca desistiu. Essa é uma grande frase dita pelo papa João Paulo II, que contém a chave daquele que deseja se aprimorar. Sabendo que “santo”, penso eu aqui nestes escritos agora, é o lugar da bem-aventurança, da maturidade. O pecador é esse lugar de reincidência de erros e círculos viciosos.

A vida exige transcendência, crescimento, rompimentos, desapegos, fechamentos de ciclos, renascimentos. A vida é um movimento contínuo de um desabrochar infinito, como diz aquela música de Caetano, Canto de um povo de um lugar: “Todo dia o sol levanta, e a gente canta ao sol de todo dia. Fim da tarde a terra cora e a gente chora porque finda a tarde. Quando a noite a lua mansa e a gente dança venerando a noite. Madrugada céu de estrelas e a gente dorme sonhando com elas.” A vida não se esgota, a vida é a todo o segundo uma espera de cuidado. A vida se repete, as circunstâncias podem até se repetir, mas exigem de nós novos comportamentos, novas respostas.

A gente canta, a gente chora, a gente dança, a gente dorme e a gente sonha, enquanto o sol continua a nascer, continua a corar, a lua vem, as estrelas correm para tomarem seus lugares no céu. É esse pulsar da vida que te chama a responder de novo, com mais coerência, a cada passo, verdade? Não que não haverá erros, mas os erros não são motivos de parada e sim degraus da caminhada.

A gente muitas vezes repete aquilo que vai na direção contrária. Mas é um cuidado constante, um redirecionar da bússola, um reverenciar todos os dias, quando você levanta e o Sol nasce, e você pode agradecer pela oportunidade de continuar tentando!

“Uma pessoa madura não é uma pessoa que não erra, porque isso não existe. Uma pessoa madura é uma pessoa que sofre com a própria fragilidade, que sofre com o próprio mal e grita por uma possibilidade de solução disso.” Foi o que o disse sabiamente o professor Miguel Mahfoud.

Pois é, buscar soluções apesar dos pesares… Para a ética e para a maturidade nunca desistir, superar o pecador, e santificar. Santificafo seja e que venha a nós o reino de paz.

Ana Terra Oliveira é moradora de São Lourenço, psicóloga, escritora e contadora de histórias. Telefone: (35) 99761-5782

Se houver paradoxo, que haja boa poesia! – Crônicas da Terra

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“Tudo me é lícito, mas nem tudo me convêm.” Esse é um ditado bíblico que eu sempre ouvi dizer. Coríntios nunca se fez tão necessário, tão atual, pois as circunstâncias hoje exigem escolha correta. É preciso vigilância, é preciso buscar conhecimento, sair da ignorância, é preciso presença no agora, certa dose de questionamento sobre as coerências das coisas e muito entendimento prático e consistente sobre o bem para não cair nas seduções da moda.

A sociedade do paradoxo está no meio de nós. Estamos envolvidos hoje na névoa social que o filósofo Lipovetsky veio nos abrir os olhos. É a sociedade hipermoderna onde certos valores são equacionados exponencialmente: hiperconsumismo, Individualismo, hipernacisismo, Imediatismos. Cuidado! Chegamos aos extremos. Estejamos despertos, vigilantes!

São tantas tecnologias, tantas informações, tantas ofertas de produtos. Ansiedade para ter, ansiedade para aparecer. “Ser” nem sempre dá ibope, não dá muitas curtidas e visualizações, nem movem milhões de dólares em clipes do novo álbum. Muitas vezes tem sido assim! Mas eu sei que nem sempre é assim, eis o paradoxo.

Revestidos por este espírito da época, as coisas viram moda e caem no vazio, até mesmo na indignidade, na fragmentação. Tudo é rápido, há logo uma nova versão. A nova versão já existe antes mesmo da última versão ser lançada. Está tudo planejado para incitar o desejo.

Aquela história: você mal acaba de comprar o celular e sente que ele já está ultrapassado. Uma insatisfação constante, que até mulheres e homens querem trocar de cabelo como se trocam de roupa.

E no mundo das reflexões, importantes para mudar o modo de fazer e viver, grandes lições passam pelos dedos despercebidas na rolagem dos feeds das redes sociais… ninguém se demora em refletir apreciando um único pensamento. A mente se agita e logo milhares de pensamentos surgem simultâneos.

Nem sempre é assim, eis o paradoxo.
Mas deste lado da coisa as postagens de ontem são tão velhas e antigas quanto os casacos do avô. E os textos? Se lidos são engolidos num buraco negro, perdidos, que ninguém é capaz de retornar a meditar sobre… Nem sempre é assim, eis o paradoxo.

Mas aos 30 anos tem gente que já se sente velha, se preocupando em demasia com as rugas, as aparências… É a sensação de velharia que nos acomete. E há jovens tão cansados que fogem de qualquer pesado. Nascidos de pais que muito trabalharam para garantir-lhes os bens e os consumos e as oportunidades deste tempo. Tempo onde é normal não ter tempo para nada, nem para cultivar amizades, olhar nos olhos, completar frases com gentileza, sabe aquele diálogo gentil? Mas a coisa é tudo na base do “Ok!” e às vezes de forma bem autoritária e agressiva.

Poesia então, nem se fala, coisa rara de se ler! Porque exige entrega, exige presença, exige sentir, respirar, pensar, contemplar, exige estar presente no agora! Muitos reclamam da poesia, dizem que é um emaranhado de palavras sem nexo, sem sentido. Eu que sou poeta digo: sem nexo é a indisposição para estar diante da poesia, para viver o agora! Ler poesia pode ajudar a serenar, curar ansiedade, pois não é possível ler poesia com leitura dinâmica. A poesia exige vivência! Exige respiração, entonação, respeito aos ritmos, à pontuação. Quem se arrisca, se transforma!

É preciso mudar de paradigma diante dos paradoxos. Se de um lado existe um espírito permeado pelo vazio de sentido, do outro lado, nunca se viu tantos movimentos em busca pelo saudável, tantas receitas para inovar na alimentação consciente, tanta busca por uma vida mais orgânica, mais simples, próximo à natureza, com proteção aos animais e ao meio ambiente, e a preocupação na garantia dos direitos humanos. E isso é muito bom! É conseguir trazer a luz em tempos que o espírito da época anda tão acinzentado.

Mas é questão de escolha!
Eu quando ia à praça me deparava com este paradoxo e me intrigava. Eu queria ir a um lugar agradável, com árvores, para respirar e via pessoas alegres brincando com os cachorros na grama verde de um fim de tarde. Pessoas animadas andando de bicicleta, outras fazendo caminhada, yoga, outras fazendo meditação, outras conversando sobre palestras e filmes que traziam boas ideias para o bom vivem. Mas ao mesmo tempo via casais se agredindo, animais abandonados, grupos sentados usando drogas, pessoas estressadas com buzinaços no trânsito…

Este é o paradoxo: a existência dos dois lados da moeda neste mesmo tempo, as vezes em espaços tão próximos. Mas viver e experimentar estes lados é uma escolha. Esta é a grande esperança e liberdade para tempos hipermodernos: é escolha de cada um decidir o que vai viver! Com que parte do paradoxo você ancora a sua vida? É uma questão de escolha! Escolher um implica em abandonar o outro. A escolha é concretizar, solidificar, tornar consistente, para que a vivência real aconteça. Se houver paradoxo, que saibamos escolher pela luz e não pelas cores cinzas. Havendo paradoxo, eu prefiro ficar com o que é bom, eu escolho poesia!

Ana Terra Oliveira é moradora de São Lourenço, Psicóloga, Escritora e Contadora de Histórias.

Sob um céu brumadinho – Crônicas da Terra

     Não foi o chão que tremeu, não foi o céu que desaguou, não foi o mar que recuou e jogou ressaca pelas beiras. Desta vez não. Desta vez foi o homem que fez transbordar as beiras de suas próprias construções, de seus próprios lagos e mares. Lagos onde eles depositam seus dejetos, tudo aquilo de que eles rejeitam. Rejeitos que tiraram o chão de muita gente, machucaram corações, fizeram chover lágrimas dos olhos – lágrimas marrons da lama que escorreu nas terras das brumas. Ali onde a manhã se levanta com nuvens a pairar no ar em um céu brumadinho.

  Eu que frequentei a região de Brumadinho durante oito anos e morei ali nos últimos três, desfrutei do bom clima e de uma natureza exuberante a pintar o horizonte com muitas matas fechadas, um verde a perder de vista, águas abundantes a escorrer pelas pedras e pássaros a cantar bonito sem feriados. Naquelas paragens semeei flores, plantei hortas, pedalei por estradas de terra, escrevi poemas, avizinhei-me de toda a gente. Espalhados estávamos pelos inúmeros distritos e povoados onde algumas casas distavam umas das outras apenas metros entre janelas , enquanto outras ficavam escondidas a quilômetros no silêncio, em estradas atravessadas por uma ponte de rio, um trilho de trem, uma plantação de mexericas. E na estrada, no mais tardar, novamente surgiam pés de couve, galinhas e plantações de alface e novas janelas onde as caras se encontravam para saudar com um “bom dia”.

  A região das brumas é muito convidativa, eu vi gente se mudar da Bahia indo morar ali em busca dos ares puros e onde a promessa de saúde parece boa – só perto da minha casa conheci três famílias. Vi gente fugir de seca em busca de prados e campinas verdejantes. Vi gente fugir das buzinas dos carros sob arranha-céus, os 40°C do meio-dia e as miragens de asfalto da grande metrópole em busca da paz das brumas. Aí eu vi foi muita gente! Vi gente em busca de novas experiências e oportunidades. Mas entre as brumas vi também o bem e o mal enredados lado a lado. Vi gente sofrida, comunidades aspirantes por vida digna, índices crescentes de alcoolismo, uso de drogas, desequilíbrios mentais e famílias desestruturadas. Uma região permeada por vidas emaranhadas entre abundância, belezas naturais, riquezas, bem-estar e vidas sufocadas por dramas humanos e suas misérias.

   E morando ali, a gente, o povo, até sabia, mas não fazia idéia da dimensão do que se escondia entre tantas belezas, tanta árvore e entre homens e mulheres com suas histórias. Se escondiam os campos minados, os buracos cortados, e a exploração mineral. É assim, porque entre uma árvore e outra lá se foi a visão do todo! Do meu quintal eu escutava o trem apitar e vagões deslizavam para cima e para baixo, vezes ao dia, carregados com um pó escuro avermelhado. Quando eu saia de casa topava com caminhões na estrada para cima e para baixo adiante do meu carro poeirentos de um pó escuro. Mas a gente não pensava: “o que isso tem a ver com a minha vida?”. A mina estava lá, mineiros a trabalhar, outros estavam cá, e se as poeiras levantassem pelas dores da vida logo precipitavam e tudo seguia e parecia fluir, como fluía o rico município, com o PIB da mineração, e os vagões abarrotados. A gente desconfiava, mas nem imaginava conceber que sucederia tamanha destruição.

  Há poucos meses me mudei de Brumadinho, não mais acordo com as brumas, não vejo todas as belezas naturais, nem meus vizinhos, nem as risadas das mulheres e crianças quando nos reuníamos para pintar e costurar na associação. Não ouço também meu marido voltar  do trabalho a dizer das histórias alegres e também das tristes que haviam por lá. Não vejo os vagões, nem o pó, nem a poeira, que por aqui são outras. Mas a questão é que a barragem de Córrego do Feijão se rompeu. Não vi de perto a lama destruidora que invadiu nossos janeiros, mas eu vi a dor. A dor daqueles com quem compartilhei um mesmo céu. A dor que também é nossa.

  E agora? Houve descaso? Houve imprevidência de autoridades? Houve negligência? Podemos falar em crime e vontade de lucrar mais? E eu penso na responsabilidade. Que situação! Refeitórios, prédios e barragem posicionados em locais estranhos, não parecendo ter lógica. E essa sirene que não toca?! Eu também me pergunto: “o que vale?”. Vale tanta exploração? Um país em que a exploração vem camuflada de desenvolvimento econômico, mas para o desenvolvimento econômico é aceitável a degradação humana e ambiental? Vale um minuto de silêncio para dizer um basta! Vale agora a paz! Paz para homens, mulheres e crianças que merecem respeito! Paz para a Terra que clama por preservação! Paz para os animais que querem viver com dignidade.

  Agora só consigo pensar na responsabilidade: “o que a triste situação tem a ver com a minha vida?”. Não estou mais lá, mas agora sinto fortemente a impressão: “isso tem a ver com a minha vida sim”. Para onde iam todos aqueles vagões que vi passar? Para quê tantos caminhões? O que fazem com tanto minério?

   Automóveis, celulares, arame farpado, pregos, martelos, foices, facas… e garfos e colheres, motores, tratores, rodas de bicicletas, fogões, fornos, computadores, grampeadores e furadores. Uma infinidade de eletrônicos, eletrodomésticos e mesas, cadeiras, armários, camas, geladeiras, fornos microondas, panelas. Ziperes de roupa, botões, fivelas de cinto. Janelas e portas e ônibus e aviões e casas e prédios…

    E sem contar que quase tudo vem de uma indústria que moveu estruturas e máquinas feitas de aço e ferro-ligas. E agora eu entro nos supermercados e vejo os alimentos processados e embalados nas prateleiras e me lembro do pó escuro de Brumadinho.

   São muitas as coisas que me fazem pensar que eu faço parte de uma teia, como uma teia de aranha, que embora possa ser invisível e transparente, cada fio está bem entrelaçado, e tudo, mas tudo está conectado. Embora não vejo o fio que nos liga, estamos conectados! Vale um minuto de silêncio para pensar: “o que é realmente necessário em nossas vidas, o que é essencial, o que é o supérfluo, o que é excesso?”. Concordo plenamente com você que a tecnologia é importante. Mas em uma era de aço, petróleo, lucro e consumismo em primeiro lugar, vale nos perguntar: “quando vamos definitivamente optar pelo sustentável, pelo responsável, e pelo respeitável?”.

    Que a paz seja o nosso guia, paz para o sistema econômico e social, paz para os nossos modos de vida, que precisam ser éticos, certamente reinventados, muitas vezes superados e mais ainda transformados. E eu que sou parte da teia posso fazer “algo” agora, é também a minha responsabilidade!

Ana Terra Oliveira é psicóloga, escritora e contadora de histórias.

Texto publicado na Coluna Crônicas da Terra por Ana Terra Oliveira

http://www.correiodopapagaio.com.br/sao_lourenco/noticias/sob-um-ccu-brumadinho

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